O cenário é de uma cidade invisível, onde o que restou de algumas edificações faz a gente ainda escutar o burburinho na igreja, a música constante no bar da boemia e a memória dos moradores. Porém, os últimos ruídos dessa cidade cenográfica, montada no aterro do Lago Igapó II, em Londrina, para as filmagens do filme ''Heróis da Liberdade'', dirigido por Lucas Amberg, devem silenciar na próxima quinta-feira, quando o set deverá ser desmontado.
O longa-metragem, adaptação do livro homônimo do curitibano Ernani Buchmann, começou a ser filmado em setembro de 2004. Com 75% da produção concluída, as filmagens foram interrompidas por falta de recursos. Para terminar ''Heróis da Liberdade'', Amberg afirma que precisa de cerca de R$ 150 mil. O orçamento total do longa é de R$ 1 milhão.
A trama de episódios pitorescos envolvendo moradores de uma cidade do interior começa nas comemorações do aniversário do município. A morte súbita do prefeito e o desaparecimento do vice-prefeito amarram o enredo que fala sobre corrupção.
Depois de também filmar na Universidade Estadual de Londrina e na Concha Acústica, o filme abandonou a cidade cenográfica. Uma igreja, um armazém, uma escola e um bar, que seria uma reprodução do Bar Valentino que na película passou a se chamar Blue Bar compõem o cenário.
Originalmente, o projeto da cidade cenográfica previa 24 edificações. Porém, foram construídas apenas seis casas de madeira e algumas ruas. Em três edificações sobraram somente as estruturas. O restante está parcialmente destruído.
Para o presidente da Associação de Moradores e Amigos do Jardim Maringá (Assomar), Osmar Pereira Santana, a cidade cenográfica deveria ter sido desmontada há muito tempo. ''A gente está sendo bastante prejudicado com essa cidade. Tenho uma escolinha de futebol, com 62 crianças. Antes das filmagens, tínhamos dois campos para os alunos treinarem. Agora é apenas um campo. Quando foi para iniciar a filmagem, a Secretaria de Cultura se reuniu com a comunidade e propôs usar o espaço até o mês de maio. Então, devolveriam a área de lazer. Já estamos em agosto e nada foi feito'', afirmou Santana.
O líder comunitário lembrou que a desmontagem da cidade cenográfica deveria ter ocorrido na quinta-feira passada, mas como exigia a presença do diretor do filme, não pôde ser iniciada. Amberg, que deve chegar a Londrina hoje à noite para tratar do assunto com a Secretaria de Cultura, afirmou em entrevista por telefone que a desmontagem deverá acontecer nesta quinta-feira, lamentando que apenas 25% do filme faltam ser concluídos.
''É um pecado já que falta tão pouco para terminar'', limitou-se a dizer o diretor, destacando que o longa ofereceu 55 empregos diretos e 250 indiretos, além de investir R$ 400 mil em Londrina. Ele acrescentou que a Sercomtel investiu R$ 40 mil na produção.
Alheios à continuação ou não das filmagens, os moradores da região divergem sobre a desmontagem da cidade cenográfica. ''Estava falando agora mesmo com um amigo. Se essa cidade estivesse construída perto de uma favela já tinham levado tudo isso daí'', lamentou o aposentado José Gomes, 83 anos, morador na região há 35 anos.
Apesar do abandono da cidade cenográfica, o aterro está bem cuidado. Trabalho realizado por moradores, como a aposentada Sinei Rocha de Oliveira, 66 anos. ''A gente fica triste ao ver o cenário assim. Tenho pena do diretor, que não teve condições de terminar o filme. Esse filme mostra tudo o que está acontecendo, como o escândalo do 'Mensalão'. Nós da região estamos lutando para que as pessoas vejam que podem cuidar do ambiente em que vivem, sem precisar de políticos'', afirmou Sinei que, ontem pela manhã, munida de uma lata de lixo, recolhia dejetos deixados pelos visitantes da área de lazer durante o final de semana.
O secretário municipal de Cultura, Luciano Bittencourt, afirmou que a comunidade tem razão em reclamar da demora na desmontagem do cenário. ''Temos que ser gratos a eles pela paciência. A comunidade tem entendido que o cinema nacional sempre leva um tempo para realizar as coisas. É normal''. Ele ressaltou que a presença do diretor é imprescindível para não haver problema na remontagem.
Há quem também defenda a manutenção do cenário. ''Acho que deviam arrumar isso daí, deixar como ponto turístico. Acho que esse cenário tem um glamour. Deveriam instalar uma placa para dizer o que foi realizado aqui'', sugeriu o estilista Nélio Pinheiro, que aproveita o espaço para fazer caminhadas. (Colaborou Fernando Rocha Faro)

mockup