Cicloturista descobre um outro mundo
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quarta-feira, 27 de outubro de 2004
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Pode parecer coisa de louco ou pagador de promessa, mas pegar uma bicicleta e sair pedalando por aí mais do que encurtar a distância até a sensação de liberdade põe o viajante em contato consigo e os próprios limites em cada esquina do mundo. Para o cicloturista paulista Antonio Olinto essa viagem para dentro de si durou três anos e meio. Tempo em que percorreu 46.620 quilômetros, 34 países de quatro continentes, muitas histórias e experiências, que não se apagam com a poeira da simples aventura.
No alforje dessa viagem, além dos apetrechos necessários para a viagem, Olinto carrega o que considera um tesouro, encontrado nas diversas paragens mundão afora e que não são as paisagens e os lugares visitados, mas as pessoas que se colocaram em seu caminho.
Se preparando novamente para pegar a estrada sobre duas rodas pelo interior do Norte e Nordeste do país em dezembro, Olinto está em Londrina para ministrar uma palestra hoje, às 20 horas, na Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil). Os convites estão à venda por R$ 5,00 na Trilha & Cia (Rua Fernando de Noronha, 243).
Quando decidiu pegar uma magrela e US$ 10 mil para se aventurar na viagem pelo planeta, em 1993, Olinto tinha 26 anos, guardando para sempre o diploma de advogado. A motivação inicial para começar a pedalar foi alguns quilos a mais na balança.
Aos 37 anos, o cicloturista não plantou uma árvore, mas já escreveu um livro, ''No Guidão da Liberdade'', narrando com quantas pedaladas se faz uma aventura, que começou em Madri (Espanha). Os mais de 800 quilômetros de Santiago Compostela estão no início dessa peregrinação por 13 países europeus, além da África, Ásia e América, diário de bordo que incluiu lugares sagrados, até voltar ao Brasil em 1996.
Ao enfrentar extremos de temperaturas e altitudes que variavam dos 400 metros abaixo do nível do mar, catapultando para 5.602 metros em Passo de Kardung-la, região de Ladakh (Índia), considerada a estrada mais alta do mundo, onde o frio bateu os 20 graus negativos, Olinto fez algumas descobertas que o pôs no teto da própria vida.
''Viajar de bicicleta nos expõe a certos sacrifícios, aprendemos com os percalços, espelhos dos percalços da vida'', avalia o cicloturista, acrescentando que uma viagem como essa nos deixa vulneráveis a tudo. ''Isso nos aproxima da gente mesmo. Não é só isso, propriciando um grande equilíbrio'', destaca.
Aprendizado que passa por idiomas e culturas diferentes, enquanto pedala de seis a sete horas por dia, abrindo um vão na razão para que o cicloturista mergulhe numa corredeira filosófica abissal.
''Todos os dias convivemos com uma alimentação simples. A cadência das pedaladas é como um mantra e logo você está introduzido num caminho de meditação. É a magia da bicicleta'', comenta. Um ano com a bicicleta encostada, após duas cirurgias para tratamento de um câncer -etapa praticamente vencida na viagem pela vida -, Olinto diz que para colocar os pneus na estrada é só ter coragem e disposição.
''Durante a aventura pelo mundo, me libertei por três anos e meio, quebrando a equação tempo/dinheiro. O tempo é relativo. O tempo passou a ser meu. Quando viajava de carro não conseguia parar para fazer xixi. Hoje consigo parar para ver as coisas e até fazer xixi. Mudaram na minha vida todos os conceitos, não apenas de dinheiro, mas da própria felicidade'', afirma. ''O cicloturismo não me ajudou somente agora, que passei por esse problema de saúde. Durante toda a viagem entrei em contato com o mundo real. Aprendi que tem mais pessoas boas do que más. Para cada pessoa ruim há sempre uma para te carregar no colo.''
Olinto recomenda para quem deseja começar no esporte carregar um equipamento básico, que custa cerca de R$ 600,00. Equipamento que consiste em fogareiro, barraca, saco de dormir, isolante térmico, lanterna, não esquecendo do alforje para guardar os tesouros que encontrar pelo caminho no passeio que pode começar pelo quintal da cidade, chegando às esquinas do mundo, onde em cada pessoas, independente da cultura, podemos mudar os nossos conceitos sobre solidariedade, felicidade, religião...


