Ciclista desafia Rali da Morte
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sexta-feira, 07 de agosto de 2009
Fernando Rocha Faro<BR> Reportagem Local 
Londrina - Um dos locais mais perigosos da Patagônia, área remota da Argentina, é a Serra dos Chacais. Percorrer o trecho sobre duas rodas, é uma aventura e tanto. O perigo é calculado, desde que o ciclista seja prudente e siga o conselho dos habitantes locais. A travessia pode ser feita apenas entre 10 e 14 horas. Por quê? É o horário que os lobos estão dormindo.
A história faz parte do repertório de aventuras do ciclista Lavoisier Richard, 45 anos, que mora em Londrina. A satisfação dele é percorrer longos trechos pedalando, de preferência por paisagens inóspitas e perigosas, para quebrar a rotina. A próxima aventura está preparada e promete ser a mais difícil da curta, porém movimentada, carreira do esportista.
O objetivo é percorrer 1,2 mil quilômetros em 120 horas, entre São Paulo e Porto Alegre. A rota escolhida é a BR-116, uma das principais e mais perigosas ligações entre o Sudeste e o Sul do País. A saída está programada para 15 de agosto, a partir do Rio Pinheiros. A chegada deve ocorrer quatro dias depois, no Rio Guaíba.
O mais impressionante é a média de quilômetros percorridos: 134 por dia. São cerca de 12 horas pedalando por dia. Essa é a única forma de cumprir o planejamento e atingir o objetivo no tempo estipulado. Para isso, muita preparação é exigida, tanto física e mental quanto logística.
Os treinos são constantes. Cada vez que Richard sai para pedalar, são horas e horas de prática. A média semanal é de 600 quilômetros percorridos pelas estradas e avenidas da região. A única forma de preparação física é sobre a bicicleta. A alimentação também é básica: muito arroz e feijão e nenhuma dieta especial. Faço tudo na raça e na garra mesmo, diz.
O preparo mental é importante para suportar tanto treino. Apesar de tratar-se de uma atividade extremamente repetitiva, a fonte de motivação é o desafio de percorrer trechos de alto risco, porém em contato com belezas naturais e a diversidade cultural de cada região.
Para o Rali da Morte, são três trechos ciclisticamente difíceis, as serras do Mar, Geral e Gaúcha. A rotina nos cinco dias de desafio é simples: come, dorme, pedala, resume Richard. Grande parte da jornada será em áreas sem acostamento. E se for preciso, o ciclista garante que vai pedalar até a noite para cumprir o desafio no prazo previsto. Se pedalar de dia na BR-116 é um semi-suicídio, à noite é encomendar o caixão, brinca.
Sem perigos, no entanto, não haveria tanta motivação. Por isso, a escolha das jornadas segue dois pré-requisitos básicos: ter um determinado grau de risco e ser um desafio inédito. Ele acredita até que outros aventureiros tenham feito o trecho, mas não em cinco dias.
As aventuras anteriores serviram para que o ciclista colecionasse histórias e aumentasse a vontade de enfrentar novos desafios. O primeiro foi uma jornada de pouco mais de mil quilômetros, em 11 dias, no Deserto da Terra Colorada, no norte da Patagônia, em março de 2007. Em abril do ano passado, o destino foi o Gran Chaco Americano, no extremo norte da Argentina. O trecho inóspito contava com uma cidade a cada cem quilômetros. E foram vencidos 1.580 Km em oito dias e 14 horas de pedalada.
Para andar tanto por diferentes roteiros no Brasil e em outros países da América do Sul, o apoio logístico é essencial. O carro de apoio será pilotado por Everaldo dos Reis, amigo de Richard. No material, alimentos como chocolate e suco de soja, roupas, kit de primeiros socorros, peças de reposição, bicicleta reserva e câmera fotográfica e filmadora.
Reis também ficará responsável por registrar as paisagens percorridas. O material é organizado depois em DVD, que é comercializado. O dinheiro arrecadado é usado para ajudar a bancar as despesas das viagens. O investimento restante sai do bolso do próprio funcionário público, um apaixonado por aventuras de alto risco. Mas que sabe bem que o risco precisa ser bem calculado. E foi por isso que ele não teve dúvidas e respeitou os conselhos sobre os chacais. A travessia foi feita, mas no horário recomendado, quando as feras estão dormindo.


