Lino Ramos
De Londrina
Há quatro meses o gaúcho João Odmar Cavalheiro, 46 anos, tem rodado o Norte do Paraná e o Estado de São Paulo atrás de um emprego. De Londrina a Campinas, de Jundiaí ao Paraná... sempre a bordo de uma bicicleta. Uma mochila com objetos pessoais, roupas e apostilas técnicas do Senai acompanham o desempregado-ciclista.
Andar de bicleta por aí afora não parece tarefa muito fácil, pois João calcula que já rodou aproximadamente dois mil quilômetros. Mas não desiste porque nunca teve vida fácil.
Natural de Júlio de Castilho, no Rio Grande do Sul, ele deixou a terra natal aos 14 anos, quando ficou órfão de pai e mãe e até os 17 trabalhou em frigoríficos e silos. Depois tentou a sorte em companhias de asfalto gaúchas e até em uma barragem no município de Salto do Joaquim.
Posteriormente desceu até Porto Alegre, solitário e sem nunca arranjar família. Em 97, aproveitando o dinheiro de uma indenização trabalhista, veio ao Paraná conhecer as Cataratas do Iguaçu e decidiu dar uma esticada até Londrina. Nessa época João Odmar Cavalheiro ainda andava ‘‘meio de ônibus, meio à pé. Em Londrina deu entrada na papelada do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e o Seguro Desemprego, na Caixa Econômica Federal.
Acabou alugando um quarto de pensão e fez um curso de mecânica e usinagem industrial no Serviço Nacional da Indústria (Senai). ‘‘Na época estavam montando a Atlas’’, explica. João tentou uma vaga, preenchendo ficha em uma empresa de recrutamento de pessoal. ‘‘Tentei emprego mas estava difícil e voltei para Porto Alegre, onde paguei umas contas’’, revelou.
No ano passado João retornou a Londrina e ficou sabendo que as fichas já estavam na empresa, mas como nada aconteceu o jeito foi descer a Porto Alegre, onde sõ conseguiu um ‘‘bico’’. De volta a Londrina neste segundo semestre, decidiu comprar uma bicicleta 18 marchas seminova por R$ 76,00. ‘‘Sai pela pista, passei em Cornélio Procópio, Santa Mariana e acabei chegando em Sorocaba procurando emprego’’, conta.
Como a sorte não ajudou, João Odmar Cavalheiro resolveu subir até Campinas, onde descobriu um anúncio de emprego no exterior. ‘‘Aí fiquei eufórico com o anúncio de uma plataforma petrolífera de Valinhos para trabalhar no exterior. Deixei embalar demais a bicicleta e quando puxei os freios não consegui parar e bati num carro.’’
O sonho de deixar o Brasil ficou no pára-choque de um veículo em Campinas, mas o gaúcho ainda reuniu as forças e as economias, consertou a magrela e foi parar em Jundiaí, Santa Bárbara do Oeste e Indaiatuba. A falta de endereço e a forma sincera como se apresenta difultaram ainda mais a chance de obter uma vaga no mercado de trabalho. Nenhuma oportunidade apareceu e o desempregado-ciclista sentiu que era hora de voltar. ‘‘Lá os processos seletivos são ainda mais rígidos.’’
Rodando de um canto para outro, João Cavalheiro aprendeu a se defender da ignorância humana e a trocar um pouco de trabalho por um prato de comida e um canto para dormir.

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