Cianorte declara guerra à prostituição
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sábado, 21 de março de 1998
Vânia Moreira 
Vânia MoreiraFrustraçãoProprietária gastou cerca de R$ 8 mil para construir um muro de dois metros de altura em todo o terreno da Boate Estrela; não terá retorno do investimento porque a casa foi fechada pelo delegado O delegado de Cianorte (80 km a leste de Umuarama), Nelson Tavares, declarou guerra à prostituição na cidade. Em menos de dois meses, Tavares recolheu o alvará e fechou pelo menos nove casas e boates que exploravam a prostituição, a maioria localizada na chamada zona do meretrício, na Rua Ireni. Semana passada, o delegado fechou também a boate UTI da Cerveja no trecho urbano da PR-323. Se eu tiver conhecimento e provas do funcionamento de casas de prostituição eu fecho, garante o delegado.
O fim da zona do meretrício, o mais antigo reduto de prostitutição da cidade, foi o que causou mais polêmica. Apanhadas de surpresa, as donas de oito bordéis e quase 30 prostitutas ficaram sem ter para onde ir. A maioria continua nas casas sem poder trabalhar e alegam estar passando necessidade. Afirmam depender da prostituição para sustentar elas e os filhos - quase todas têm pelo menos um filho.
As prostitutas e donas dos bordéis reconhecem que a zona do meretrício precisava acabar porque estava numa área residencial. Só reclamam porque o delegado não deu um prazo para que se mudassem ou ter avisado com antecendência para se prevenir. Dona da Boate Estrela, a mais antiga do lugar, Diva (ela não autorizou publicar o sobrenome), 66 anos, conta que passou apuro nos primeiros dias sem nenhum faturamento.
Vânia MoreiraDelegado Nelson Tavares
Segundo Diva, o delegado convocou as donas de boates para uma reunião e pediu que levassem o alvará de licença. Ele recolheu os alvarás e anunciou que a partir daquele dia as casas estavam proibidas de funcionar. Tive de emprestar dinheiro para comprar comida até receber a minha aposentadoria, contou Diva. Segundo ela, três prostitutas de São Paulo não têm dinheiro nem para voltar para casa.
Vera Ferreira Martins e Júlia Vieira mantinham uma casa alugada com oito prostitutas. Depois do fechamento, elas ficaram sem rumo. Acabaram trocando a casa onde pagavam R$ 300,00 de aluguel por outra, distante da cidade, que vai custar R$ 700,00. Júlia teve de dispensar a pessoa que cuidava de seus dois filhos e levá-los para a casa de uma amiga em Maringá. O movimento aqui ainda está fraco, mas já estamos conseguindo nos ajeitar de novo, conta Vera.
Quando surgiu, há 45 anos, a zona de prostituição ficava no meio do mato. A cidade cresceu e as boates acabaram cercadas por casas de famílias. Era comum os moradores presenciarem cenas de brigas, escândalos, nudez e obscenidades. Sabe como é, né? As mulheres bebem muito e acabam ficando nuas ou fazendo outras coisas em público, justifica Vera Martins. Uma das casas de prostituição fazia fundos com uma igreja católica.
O delegado argumenta que explorar a prostituição é crime e questiona como ele poderia dar um prazo para as pessoas continuarem praticando um crime. As donas das casas poderiam até ter ter sido presas. Eu optei por por não indiciar ninguém. As mulheres denunciam que existem outros pontos de prostituição na cidade, um deles ao lado de um colégio e de uma creche, que não foram incomodados.
Segundo Tavares, às vezes é difícil provar que um bar ou uma boate esteja explorando a prostituição. Só vou agir se houver denúncias ou provas. A boate UTI da Cerveja foi fechada depois que a dona, Vânia Veiga, chamou a polícia por causa de um freguês que não queria pagar a conta. O delegado constatou que a casa não tinha alvará.
Algumas prostitutas chegaram a pedir apoio a vereadores e ao deputado estadual Edno Guimarães (PFL). As autoridades, mesmo comovidas com o drama das mulheres, preferiram se manter neutras. Não posso me envolver nesta questão, encerrou Guimarães.
Os moradores da cidade, de aproximadamente 50 mil habitantes, também se dividem entre os que acham que as chamadas casas de tolerância não devem ser toleradas e os que não tem nada contra as tias, como se referem às prostitutas. Mas ninguém quer tomar partido publicamente.


