Dezessete anos e quatro passagens pelo Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) de Londrina. O companheiro de alojamento tem 15 anos e já vive sua segunda experiência de cárcere, assim como o terceiro adolescente que ocupa o mesmo espaço. Todos apreendidos por terem praticados assaltos, crime que o Ministério Público tem analisado com rigor. E assim a direção da instituição viu a superlotação do lugar atingir um nível perigoso e nunca antes visto. Com capacidade para abrigar até 36 adolescentes, ontem estava com 80. Problema que ganhou um complicador extra para ser administrado: a reforma das instalações que foi iniciada há cerca de dois meses.
Em conversa com a Folha, o trio aprovou o novo sistema de disciplina implantado pela atual direção do Ciaadi. O diretor Jorge Igarashi implantou normas como andar sempre com as mãos para trás e realização de revistas pessoais nas entradas e saídas das dependências usadas pelos adolescentes. Outra regra é que nos alojamentos podem ter apenas colchão, roupas de cama e produtos de higiene. ''Tem que cumprir né, mas tá mais bom'', disse um deles, com o português que trouxe da rua. A reforma de refeitórios e salas de atividades também mereceu elogios. Outra mudança é que a equipe de educadores foi ampliada em mais 14 servidores temporários.
O que eles desaprovam é que muitos meninos já ''sentenciados'' continuam no Ciaadi. ''Os que já têm sentença precisam ser transferidos'', criticaram dois meninos que advogavam em causa própria, pois estão lá há dois meses e meio mas não conseguem vaga no Educandário. A morosidade acaba gerando insatisfação e, claro, revolta.
Essa, justamente, foi uma das questões debatidas ontem durante encontro entre a promotora da Vara da Infância e Juventude, Edina Maria de Paula, e as direções do Ciaadi e do Educandário. A promotora garantiu que amanhã começa a analisar os relatórios de cada um dos adolescentes para agilizar audiências. ''Estamos montando um projeto onde, nas infrações mais leves, o adolescente seja atendido por uma equipe especializada em vez de ter isso apenas na etapa final, após a definição da medida sócio-educativa'', apontou. A idéia é dar uma oportunidade para os que tiverem maior vínculo familiar e menos comprometidos com a criminalidade.
A segunda opção é a remoção para outras unidades. Embora não conte com a concordância dos adolescentes nem seja uma medida considerada positiva, elas já estão acontecendo. Nesta semana, pelo menos oito adolescentes devem ser transferidos para Campo Mourão, Paranavaí, Santo Antônio da Platina e Pato Branco.
A promotora ocupa o cargo há mais de 8 anos e disse que desde que o Ciaadi foi inaugurado, em 1998, nunca houve uma situação como a atual. Conforme o diretor da unidade, mais de 60% dos adolescentes apreendidos estão nessa situação por terem cometido assaltos, crimes que não mereceram o perdão do MP. ''Este mês não liberei nenhum adolescente envolvido em roubos'', garantiu Edina. Mas o endurecimento agravou a superlotação e já gera reflexos na qualidade do atendimento prestado.
A presidente do Instituto de Ação Social do Paraná (Iasp), Thelma de Oliveira, admite que o problema não terá solução em curto prazo. ''Não temos saída, porque não conseguimos construir uma unidade em um mês. Pensamos em instalar abrigos móveis mas não há espaço.''

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