''Quanto pior, melhor.'' Este é um dos lemas dos adeptos das corridas de aventura. Uma estrada esburacada e cheia de obstáculos é o cenário dos sonhos de jipeiros e motoqueiros em busca de adrenalina. Mas o que é bom para uns, pode ser péssimo para outros. É o caso dos moradores da Zona Rural, que dependem do clima para não ficarem isolados nos períodos mais chuvosos.
Pior para os habitantes de comunidades rurais como a Água do Bejo, no Distrito de Lerroville (Zona Sul de Londrina). A estrada de acesso de cerca de 50 famílias ao asfalto que liga o distrito a Tamarana (62 km ao sul de Londrina) está do jeito que os aventureiros gostam.
Os buracos e o mato tomam conta do trecho, o que impede o acesso de veículos, como ambulâncias, às casas da comunidade. Quem sofre com a situação é o trabalhador rural aposentado João José Soares, 82 anos. Com problema de coração e pulmão, ele tem dificuldades para caminhar. O cansaço logo aparece. E como o socorro não chega na porta da casa dele, às vezes é preciso pegar carona na garupa de uma bicicleta para ir ao médico. ''Com as próprias pernas não dá'', lamenta.
Preocupada com a situação do marido, a empregada doméstica Maria Izabel de Oliveira Morais, 46 anos, está encabeçando um movimento da comunidade para cobrar das autoridades a manutenção do trecho. ''Essa situação não é justa. A prefeitura tem que consertar a estrada. A gente paga impostos e tem esse direito'', reivindica.
A dificuldade de transitar na área traz os mais diversos tipos de prejuízo para comunidade. Por conta da chuva e dos buracos, Maria Izabel perdeu dois dias de trabalho por não conseguir chegar ao ponto de ônibus. ''Minha sorte é que a patroa entende a situação'', declara.
Ponto de ônibus, aliás, é apenas força de expressão. Os usuários esperam o transporte na beira da estrada, buscando sempre um local perto de casa. Pior para as crianças e adolescentes do distrito, que estudam em Londrina ou Tamarana. Depois de desembarcar, têm de enfrentar longos trechos, a pé, na volta para casa.
As sacolas jogadas às margens do asfalto indicam que a dificuldade começou no trajeto de ida. O material plástico é usado para proteger os calçados, uma vez que o barro estende-se por todo o trecho da estada rural. A falta de moledo torna o piso mais escorregadio e a caminhada ainda mais arriscada. Por isso, não são raros casos de alunos que reprovam por falta. Culpa das estradas por vezes intransitáveis.
Foi o que aconteceu com o estudante da quinta série do Ensino Fundamental, Alan, 12 anos, que frequenta os bancos escolares em Tamarana e já reprovou por causa das dificuldades de deslocamentos nas estradas rurais da região. ''Acho a estrada perigosa. Quando chove eu tenho que levá-lo de guarda-chuva até o asfalto para pegar o ônibus'', queixa-se a mãe do garoto, a dona de casa Nadir Torres Amorin, 46.
O pedreiro autônomo Rafael José Amorim, 48, pai de Alan, é um dos pioneiros da região e quase já teve prejuízos por causa do isolamento do bairro nos dias de chuva. Para não perder clientes, enfrenta de 15 a 18 minutos de caminhada até Tamarana por falta de condições de tráfego de carros na estrada que passa na frente da casa dele.
''Só não aconteceu de perder trabalho porque a gente arruma outros meios (de se locomover)'', salienta o vice-presidente do Comunidade Unida Jamais Será Vencida, grupo formado para defender os interesses dos moradores de Lerroville, que é presidido por Maria Izabel de Oliveira Morais.

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