Excesso de chuva em Londrina não é sinônimo de enchentes e desabamentos, como acontece em outros grandes centros - pelo menos por enquanto. O sol ainda não deu o ar da graça em 2007, mas os maiores transtornos pelos quais a cidade tem passado são danos ao patrimônio resultantes de quedas de árvores, maior número de acidentes de trânsito, e um eventual alagamento de residência ou deslizamento de terra.
As roupas não secam, as crianças não podem brincar fora, e é preciso coragem para sair a pé. Essas são as principais queixas de Ariane do Espírito Santo, 22 anos, e resumem a opinião da maioria das donas-de-casa da cidade. A diferença é que Ariane mora em uma invasão em um fundo de vale no Jardim Marieta (Zona Norte), em um barraco de dois cômodos improvisado com vigas de madeira e telhas quebradas.
O varal de arame farpado e cordas não é coberto, e parte dele foi ao chão na manhã de ontem, quando caiu o galho de árvore que o sustentava. As roupas, molhadas e sujas, precisaram aguardar em bacias no chão. ''Lavei porque tinha parado de chover. Ainda bem que as crianças têm bastante roupa, não está faltando roupa seca. Mas, se continuar assim, não sei se vai dar'', lamenta Ariane, que é mãe de dois filhos.
O mais velho, de 4 anos, como qualquer outra criança da sua idade, insiste em sair tão logo a chuva dá uma trégua. ''Eu acho perigoso, porque a água escorre e traz um monte de lixo aqui pra baixo, ao redor da casa. Mas não adianta mandar ele ficar dentro de casa, ele não obedece, não pára quieto.''
Desempregada e com um marido com problemas de sa© úde - ele levou um tiro na cabeça - ela conta que não tem mais problemas dentro de casa desde que seu companheiro consertou o telhado. Agora, o maior problema é quando a lama desliza barranco abaixo, acumula-se na porta e começa a se infiltrar barraco adentro. ''Aí tem que sair todo mundo, até meu marido, para tirar o barro que fica na entrada'', revela. Fora isso, ''apenas'' a parede dos fundos fica encharcada com a chuva. ''Molha um pouco o chão e os cobertores da minha cama. Mas tudo bem. Não pode é molhar a cama das crianças, para não ficarem doentes.''
O cuidado não impediu que um de seus filhos começasse a ter problemas com pequenas erupções nas costas, coisa que a mãe diagnosticou como alergia. ''Ia levar ao posto de sa© úde, mas, com a chuva, não dá. Eu não tenho guarda-chuva, e se chegar lá com os filhos todos molhados a médica vai achar ruim. Então estou esperando parar a chuva.''
Mesmo os ciganos instalados em barracas a menos de cem metros da casa de Ariane mostram sofrer menos com a chuva. ''É que nós já chegamos aqui com o chão molhado. Geralmente, nós cavamos umas valetas ao redor da barraca, e daí não molha de jeito nenhum'', conta o cigano Luciano do Amaral, 22 anos.
A presença de lona para forrar o chão, banquetas e diversos cobertores, sob uma barraca ampla e bastante resistente, mostra que, mesmo nômades, os ciganos vivem com mais conforto que as famílias instaladas na invasão. ''Acho que a gente vive melhor do que esse pessoal. A chuva não molha nada aqui dentro, não temos problemas. Para nós, que estamos acostumados com essa vida, é muito mais fácil'', compara.

Serviço:
Quem quiser ajudar a família de Ariane pode ligar para 9144-2964

mockup