Cascavel

Edson MazzettoTempo loucoA manhã de sexta-feira virou noite em Cascavel, mas o vendaval não causou estragos; frequência do fenômeno está deixando os cascavelenses em pânicoA última sexta-feira foi de muita reza, vela e ramos bentos queimados, e de muitos seguros contratados pelos moradores de Cascavel. Na madrugada, o vento soprou forte duas vezes, pouco depois de zero hora e antes do amanhecer. Depois, o dia virou noite e choveu muito. Domingo passado, o vento foi ainda mais forte, mas nas duas ocasiões não houve estragos. Mas já houve muito prejuízo, como em outubro de 95, quando mais de dez mil casas foram destelhadas e algumas ruíram.
Os cascavelenses que exacerbam sua religiosidade fazem prolongadas novenas, outros apenas tratam de controlar o medo, alimentado pela realidade e também por previsões catastróficas. Os precavidos fazem seguro contra vendaval. Durante a semana, corretoras e companhias do setor iniciaram um rush de telemarketing, com funcionários ligando e oferecendo planos de seguro. Nos últimos 40 dias, quando o vento soprou forte em várias ocasiões, as corretoras aumentaram as vendas entre 20% e 30%.
‘‘Não que estejamos comemorando a situação, mas o fato é que o vento nos negócios está muito a favor’’, observa João Carlos Camargo, 37 anos, 20 no setor, que representa dez companhias. Camargo também está assustado com a repetição dos fenômenos meteorológicos. As companhias não vendem seguro apenas para vendaval, mas pacotes, que incluem incêndio, raio e explosão. Os preços variam, mas pela média, por uma moradia segurada em R$ 60 mil, o custo é de R$ 90,00 ao ano. Para o caso de vendaval, a cobertura é de 20% a 30% do segurado.
Os valores seguem tabela nacional, mas há adaptação para ‘‘regiões de risco’’, em todos os tipos de seguro. É o caso de seguro contra roubo de carro: em regiões de fronteira (como a do Paraguai), onde o roubo é comum, o custo sobe. O mesmo ocorre contra incêndio, em cidades onde a estrutura do Corpo de Bombeiros é deficiente. No caso dos vendavais de Cascavel, as companhias seguradoras chegaram a avaliar aumento no preço, mas isso não ocorreu porque, presumivelmente, ‘‘o vento forte não vai bater sempre no mesmo local’’, diz Camargo.
As companhias, porém, passaram a usar de maior rigor nas vistorias feitas antes da contratação. Há casos em que ela é recusada, quando moradias ou estabelecimentos comerciais são muito frágeis. Para os que procuram o seguro, as principais recomendações feitas por profissionais conceituados do setor são de análise da tradição da corretora, sua estrutura, e as próprias companhias que representam. ‘‘Não se deve olhar apenas o custo do seguro, mas sua garantia’’, acrescenta João Carlos Camargo.
No bairro Cataratas (zona leste), o comerciante Pedro Comarella, conhece a importância ‘‘de ser precavido’’. No dia 3 de setembro ele fez seguro de seu mercado, ao custo de R$ 600,00 por ano (incluindo roubo, a parte mais cara). A cobertura para ressarcimento de prejuízos vale a partir de zero hora do dia seguinte. No dia 5, um vendaval destelhou o estabelecimento. Os reparos custaram R$ 1,7 mil. No dia 29, o vento voltou a causar estragos, e novamente eles serão assumidos pela seguradora.
Na região central, o dono de um mercado e farmácia, Jamil Stensky, foi procurado por um corretor às vésperas do último vendaval de setembro, mas estava muito ocupado e pediu que ele ‘‘passasse outro dia’’. Arcou com prejuízo de R$ 2 mil, e aí imediatamente chamou o corretor, fazendo o pacote por R$ 400,00 ao ano. Dos R$ 100 mil de seu patrimônio segurado, ‘‘R$ 30 mil valem para vendaval’’. Assim como empresários e outras pessoas de melhor condição econômica, também famílias da chamada classe média baixa têm procurado as corretoras.
Na sexta-feira, enquanto a reportagem da Folha conversava com corretores, seus telefones celulares eram chamados constantemente por interessados em seguro. Além dos vendavais e seus estragos concretos, outros motivos para o medo foram boatos de que a vidente ‘‘Mãe Dinᒒ, de São Paulo, teria previsto uma catástrofe para os próximos dias. A própria vidente desmentiu os boatos, através de emissoras de rádio, lamentando o uso de seu nome ‘‘para deixar a população alarmada’’. (Leia terça-feira sobre a organização da Defesa Civil no Noroeste do Estado)

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