Maria Madalena de Souza foi atingida pelo fogo quando o marido tentava reacender a churrasqueira: "Foi um momento infantil de nossa parte"
Maria Madalena de Souza foi atingida pelo fogo quando o marido tentava reacender a churrasqueira: "Foi um momento infantil de nossa parte" | Foto: Celso Pacheco
Imagem ilustrativa da imagem Churrasco perigoso



Embora o governo tenha tomado medidas para reduzir o número de acidentes por explosão de álcool, determinando a redução da graduação alcoólica e a obrigação da venda de álcool em gel, muitas pessoas ainda continuam se arriscando e causando acidentes. Segundo a cirurgiã plástica da equipe do Centro de Tratamento de Queimados de Londrina, Xênia Tavares e Silva, entre os adultos atendidos no CTQ, 34% sofreram queimaduras com inflamáveis, a grande maioria com etanol adquirido em postos de combustíveis.

"A gente teve uma grande conquista, que foi reduzir a graduação alcoólica do material vendido no supermercado, mas as pessoas passaram a adquirir o etanol nos postos de gasolina", constata Xênia. Das 10 vagas na enfermaria e seis na UTI do CTQ, pelo menos três estão ocupadas por pessoas que se acidentaram acendendo churrasqueiras com esse tipo de combustível.

O médico-chefe do CTQ, Reinaldo Minoru Kuwahara, aconselha o uso de equipamentos como o "rabo quente", uma espécie de resistência elétrica que é mantida em contato com o carvão por cinco a dez minutos. "Não usem substâncias voláteis. Quando a pessoa vai reacender a churrasqueira, muitas vezes se esquece que debaixo daquelas cinzas ainda há brasas", reforça.
De acordo com a chefe de enfermagem do CTQ do Hospital Universitário (HU), Elza Tokushima Anami, muitos acidentes com álcool acontecem também no aquecimento de comida (utilizando equipamentos como o rechaud) ou queimando lixo no quintal. "O uso de álcool é desastroso. É letal e deixa cicatrizes profundas", aponta. Segundo ela, no CTQ, que é um centro de referência de alta complexidade, 70% das vítimas são adultas e 30% crianças.

DADOS
As queimaduras estão entre as principais causas externas de morte registradas no Brasil, demonstrando uma taxa de mortalidade de 62% entre os pacientes com queimadura internados em hospital de emergência, segundo pesquisa publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia, em 2005.
Em Londrina, dos 253 casos atendidos pelo CTQ em 2014, 94 foram de crianças com média de idade 3,5 anos. A média de idade dos adultos é de 38 anos. Em 2015, dos 262 casos atendidos, 67 eram de crianças (média de 4 anos). Os demais foram pacientes com 39 anos de média de idade, exatamente a idade de Maria Madalena de Souza, cozinheira de Paranavaí (Noroeste). Ela foi atingida pelas chamas quando o marido tentava reacender uma churrasqueira com álcool e pediu para ela segurar a grelha. "O álcool explodiu bem na região da minha barriga. Parecia que a churrasqueira não tinha mais chama alguma, mas quando meu marido foi colocar álcool no copo, o fogo veio para cima de mim. Na hora saí correndo, pois eu estava usando uma roupa de lycra, bem colada no corpo. Meu marido apagou o fogo com um balde de água", recorda.

Madalena fez questão de relatar sua história para que outras pessoas não cometam o erro que ela cometeu. "Eu sempre fui bastante cuidadosa, mas foi um momento infantil de nossa parte. O meu conselho é para que as pessoas sejam precavidas, pois não é brincadeira não", relatou. Madalena ficou internada por 28 dias no CTQ de Londrina e lá conviveu com outros pacientes que tiveram histórias semelhantes. "É angustiante ficar aqui no hospital. Teve outro caso de uma pessoa que sofreu queimaduras ao tentar reacender uma churrasqueira. Outro caso foi de uma pessoa que estava fritando pastel e que acabou escorregando no piso e o óleo caiu em cima dela. A orelha dela acabou grudada no tacho de óleo quente", aponta.

mockup