Um cheiro forte e um portal enferrujado recebem os visitantes no Parque Industrial Domingos Soares Filho, na entrada de Cornélio Procópio - uma das principais cidades do norte do Paraná. São os dois primeiros indícios da presença de uma indústria de chumbo no local e da insatisfação dos vizinhos com a fábrica.
Uma resolução baixada recentemente pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, que endureceu as exigências para empreendimentos que utilizem chumbo, acendeu uma esperança nos cidadãos obrigados a conviver com a poluição gerada pela Indústria Brasileira de Placas para Acumuladores (IBP). Mas depois de cinco anos denunciando, em vão, o que acredita ser um crime ambiental, o empresário Jair José Maria Júnior teme que tudo continue igual. ''Estamos cansados de ver o Poder Público lavar as mãos'', desabafa.
Jair levou sua fábrica de estruturas metálicas para o Parque Industrial em 1999, aproveitando o incentivo da prefeitura, que doou o terreno. À época, conta, a IBP era menor e seu processo produtivo ainda não incomodava a vizinhança. ''Ela cresceu e a poluição se tornou insuportável. Nos últimos anos, afugentou pelo menos seis empresas do ramo metalúrgico e uma de coleta seletiva, que preferiram se mudar'', conta.
De acordo com o empresário, um dos efeitos mais prejudiciais do chumbo liberado na atmosfera é a oxidação. Alambrados, telhados, portões, grades - tudo que se encontra na área externa da firma de Jair fica constantemente enferrujado. ''A gente não vence trocar as estruturas e passar cal para tentar proteger. Vou precisar reformar o barracão, que está novo, e não vai sair por menos de R$ 40 mil. É um desincentivo'', aponta.
Queixas de saúde relacionadas à fundição de chumbo também são comuns entre os trabalhadores do parque. ''Tenho que deixar comprimido para dor de cabeça em cima da mesa todos os dias. Se as janelas ficam todas enferrujadas, imagine o que acontece dentro de nós'', observa a secretária Dirce Caversan. ''Sinto dor no peito, o nariz e os olhos ficam irritados. Dá até medo de fazer um exame e descobrir alguma coisa errada'', diz o funcionário de uma serralheria vizinha à fábrica, que prefere não se identificar.
Um ex-empregado da IBP contou que a rotatividade de operários é grande na empresa, devido ao ''serviço pesado e cheiro forte'' com que convivem. Ele ressaltou que a empresa seguia vários procedimentos de segurança, como não permitir que os funcionários fossem embora sem tomar banho, mas que ''não voltaria a trabalhar lá''.
Outra preocupação da comunidade é com uma possível contaminação do solo. Há várias lavouras de grãos nos arredores do Parque Industrial e dentro da própria área existe um sítio que fornece verduras para todo o município. A proprietária, Rita Tamiko Ohara, diz que análises de nutrientes feitas na horta não apontaram presença de chumbo. Ela não descarta, contudo, a possibilidade de se mudar um dia. ''Se a indústria se ampliar e chegar próxima demais da plantação, vai ficar complicado'', pondera.
Jair lembra que um abaixo-assinado pedindo fiscalização sobre a atividade da empresa foi entregue ao Ministério Público (MP) em 2002. Segundo ele, as denúncias também foram levadas ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP), a representantes da Assembléia Legislativa (AL) e à prefeitura. ''Não adiantou nada. Investi toda a minha vida nesse projeto e estou vendo ele desabar. Não sou contra a indústria, todo mundo tem que sobreviver. Só quero que as coisas sejam feitas da maneira correta, dentro da lei.''

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