Pesquisadoras paulistas constataram que 55,3% das crianças entre 2 e 10 anos da Vila Mota, localidade rural do município de Adrianópolis (133 quilômetros ao norte de Curitiba) apresentam índices elevados de chumbo no sangue. A pesquisa é desenvolvida em parceria entre a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) desde setembro do ano passado.
Foi coletado sangue de 174 crianças que vivem nas imediações de uma mineradora, que está desativada desde 1996 e explorava metais pesados, como chumbo, prata e alumínio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como limite máximo 10 microgramas de chumbo por decilitro de sangue. Entre as 99 crianças que apresentaram excesso do mineral no organismo, havia quem tivesse até 32 microgramas por decilitro. Os efeitos do chumbo são percebidos a longo prazo. Os principais são desnutrição e consequente retardamento no crescimento, problemas nas articulações e ossos, debilidade mental e até cegueira.
Apesar da mineradora estar desativada há seis anos, centenas de toneladas de resíduos do processamento de chumbo, chamado de escória, continuam depositadas na região. Os montes estão a menos de 20 metros do Rio Ribeira, principal manancial da região. As crianças costumam brincar no local. J.F.C., 14 anos, passa todos os dias pelos montes de escória.
A nutricionista Paula Regina Rodrigues, uma das pesquisadoras que trabalham em Adrianópolis, diz que ainda é cedo para fazer afirmações sobre as causas da contaminação de chumbo nas crianças. ‘‘Estamos testando uma suplementação alimentar que atua no combate da anemia das crianças’’, afirmou Paula. ‘‘Uma das causas da desnutrição e crescimento retardado das crianças pode ser a contaminação por chumbo, mas ainda é cedo para qualquer afirmação.’’
As pesquisadoras vão coletar amostras de alimentos e de solo da região para análise no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. Só após a conclusão das análises, em seis meses, as pesquisadoras poderão afirmar qual a origem da contaminação.
Sem um manejo adequado, a escória pode contaminar água, peixes e alimentos. Outro problema causado pelo excesso de chumbo no organismo de mulheres é a má formação fetal. O obstetra Edson Orlando da Silva, de Apiaí (sul de São Paulo), que atende a maioria das gestantes de Adrianópolis, está iniciando uma pesquisa sobre o problema. ‘‘Ainda é cedo, mas constatei que o índice de ocorrência de má formação fetal no município é maior que o normal.’’
O vice-prefeito de Adrianópolis, Claudio Pedro de Lima (PSL), diz que o município não pode fazer nada para resolver o problema por falta de recursos. Segundo ele, o serralheiro Mario Tagushi comprou os resíduos de chumbo da Plumbum logo depois que a empresa fechou. Tagushi teria dito que pretende retirar os resíduos.

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