Chimbica e seu grande amor: a cachaça
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quinta-feira, 04 de julho de 2002
Gilmar Agassi<br> Equipe da Folha 
Cascavel - Chimbica era uma daquelas figuras folclóricas que existem em todas cidades pequenas espalhadas pelo país. Vivia bêbado pelas ruas, mas não incomodava ninguém. Se precisasse encontrar com ele, era só dar uma passada no bar do Juca que lá estava ele tomando uma branquinha e contando histórias, uma mais esquisita que a outra.
Mesmo morando há muitos anos naquela cidade do Oeste do Paraná, ninguém sabia ao certo a idade de Chimbica. Na verdade, nem ele mesmo sabia de que forma chegou lá, quem dera saber quantos anos tinha. Mesmo com o copo de pinga na mão, Chimbica jamais admitia que estava bêbado, preferia dizer que estava em um estado de felicidade que lhe permitia raciocinar melhor.
E Chimbica ia vivendo pelas ruas sem muitas preocupações e dependendo da ajuda da população. Algumas donas de casa que lhe conheciam, da rua é claro, ficavam com dó e lhe davam um prato de comida. Para dormir era mais complicado, mas nada que o banco da praça não resolvesse. A embriaguez era tanta, que o cimento ficava macio como um colchão.
Antes que alguém pergunte se Chimbica trabalhava, é bom deixar claro que se tem alguma coisa que ele nunca fez nada vida foi trabalhar. Quando ainda não estava tomado pela cachaça e conseguia falar sem enrolar a língua, ele argumentava que todas as vezes que pensou em arrumar emprego, sentiu fortes dores no peito e desistiu. Chimbica era um tremendo folgado que vivia encostado na bondade dos outros.
Mas os anos de cachaça não ficaram impunes e Chimbica começou a adoecer. No começo achava que não era nada sério, talvez uma pequena gastrite. Chimbica não queria acreditar que a pinga, sua companheira de tantos anos, pudesse estar lhe pregando alguma peça.
Quando a situação estava mais que complicada, Juca reuniu alguns amigos do bar e decidiram levá-lo para uma consulta médica. O doutor nem precisou examinar muito e já deu o diagnóstico. O problema era muito grave. Chimbica tinha contraído uma cirrose, o que lhe dava pouco tempo de vida.
Ao ser comunicado da gravidade da doença, Chimbica pensou um pouco e se apressou a chamar Juca para irem ao bar. Ele queria aproveitar seus últimos momentos na terra ao lado de sua eterna companheira, a cachaça. E foi assim até que a doença o venceu e a cidade ficou órfã do folclórico Chimbica.


