Cheia faz dos ilhéus povo em extinção
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de fevereiro de 1997
Leonardo Revesso 
Especial para a Folha
Álvaro OrsiRotina nas ilhasA água bateu na porta da casa, mas Henrique Pereira não se incomoda; ele não deixa o lugar onde vive com a mulher, uma neta e um filho
VILA ALTA - Metade da década de 70, janeiro de 1983, início de 89. São épocas que os moradores do arquipélago de Ilha Grande, no Noroeste do Estado, não esquecem. Em todas elas, a água cobriu casas e plantações, matou animais e levou parte da fertilidade do lugar. O pior foi ter que abandonar as casas e deixar um pedaço da vida para trás.
Hoje a situação se repete. As chuvas fizeram o Rio Paraná transbordar, na maior cheia dos últimos oito anos. Os ilhéus estão fora de suas moradias e as lavouras de subsistência ficaram debaixo dágua. Ninguém entende mais o tempo. A dor da perda está cicatrizada em homens teimosos, mulheres submissas e crianças tímidas.
Só no município de Vila Alta (70 quilômetros a nordeste de Umuarama), 40 famílias estão desabrigadas. Elas ficam em escolas e postos de saúde desativados. Em Icaraíma, município vizinho, são pelo menos outras 30. O sentimento de perda para estas pessoas, apesar de se renovar constantemente, parece não ser tão doloroso.
A cada ano, no entanto, a cheia está fazendo menos vítimas no Paranazão. Pelo menos 300 famílias moravam nos limites do arquipélago, próximo de Vila Alta, há oito anos. Hoje sobraram apenas cerca de 50.
Os ilhéus que deixaram a área - um santuário ecológico atingido parcialmente pela ação dos depredadores - foram forçados ou saíram voluntariamente. Conheceram as vantagens de viver em terra firme, no chamado continente, e não voltaram mais para as velhas casas.
Outros, no entanto, foram apresentados ao mundo pelos fazendeiros que ampliaram seus domínios ilegais nas ilhas (veja texto ao lado). A redução do número de nativos - pessoas que nasceram e cresceram nas ilhas - aponta para uma grande e inevitável perda: a extinção de um povo com cultura própria e muito rica em simplicidade. Atualmente, nem todos os filhos crescem com os pais. Vão para a cidade trabalhar e estudar.
Álvaro OrsiResistênciaMoradores aguentam firme e só deixam as casas quando a água cobre tudo
As opções de serviço se limitam ao emprego de bóia-fria. O sofrimento continua, a gente passa até fome aqui, longe das bananas e dos bichos da ilha, mas é melhor, pois vemos o mundo e dá até para ir à escola, diz Everaldo Cunha, que há quatro anos deixou a família na Ilha Grande. Só vou para lá levar alguma coisa para o pessoal, observa.
A opção de desintegrar a família geralmente é tomada em grupo. Nas ilhas ainda existe diálogo. Há tempo de sobra para isso, já que não existe TV, rádio, bailes ou mesmo bares. Simplesmente, o pai autoriza e o filho vai embora. A mãe, por sua vez, não tem lá muita influência. Faz e aceita o que o marido quer.
Resistência Que os moradores do arquipélago de Ilha Grande estão em extinção, não há dúvida. Mas é um processo lento, que pode demorar muitos anos. Prova disso é a resistência dos mais velhos.
Mesmo com a água batendo na porta de casa e o quintal todo inundado, a tal ponto de ter que utilizar um batê (barco simples construído pelos nativos) para se locomover de um lado para o outro, Henrique Pereira, avô de Cristina, se recusa a sair de casa com a neta, a mulher - Everaldina - e o filho que mal sabe dizer o nome.
Os poucos utensílios da casa ficam protegidos em forrações improvisadas no teto. Mais 10 centímetros acima do normal e a água invade toda a casa. Pereira, sempre com um sorriso estampado no rosto, prefere ficar tranquilo, colhendo bananas, oferecidas gentilmente aos visitantes, e cuidando dos cinco porcos que dividem com a família um cômodo da casa.
Não aguento aquela zoeira da cidade. Aquilo não é mundo para mim. É melhor ficar aqui ou então morrer, diz. Mesmo com toda a miséria que vivemos, é melhor ser ilhéu, acrescenta. A mulher discorda do marido. Mas é ele quem manda, resigna-se, cabisbaixa, chutando a água na porta da cozinha.
Toda a comida da família é feita com água do rio, sem nenhum tratamento. Com sede, o repórter pede água e é surpreendido com um caneco entrando no leito da enchente que toma conta do quintal da casa. Água com gosto de barro e de peixe, uma combinação nada interessante e pouco higiênica. Acha rapaz, essa água é boa. As minas foram alagadas e a gente bebe dessa aqui mesmo, justifica Pereira.
Com os pés debaixo dágua e um ar de adolescente, Sueli Cordeiro pensa como Pereira, que nem conhece. Só vamos sair daqui se a água cobrir tudo. Ela, o marido e o filho estão presos numa casa grande, cercada de tela contra insetos e erguida em cima de toras, a 2,5 metros do chão. Trabalham para um fazendeiro, na lida do gado.
Perto dali, o barco da reportagem se aproxima de uma casa. É hora de almoço e há utensílios de cozinha secando ao sol. O barco bate na calçada da cozinha, ao lado de uma rede improvisada para pegar peixes. Ninguém aparece, apesar dos insistentes chamados. Dois cachorros demonstram agressividade.
Tem gente em casa. Mas os ilhéus temem sair e encontrar uma equipe do Corpo de Bombeiros, pronta para convencê-los a deixar a casa. Por isso, eles preferem se fingir de mortos.
Vai continuar sendo assim se o rio não subir mais. No local que escolheram para viver, os nativos não vêem outra alternativa melhor. Já aprenderam a viver como anfíbios, metade na terra, metade na água. A água, para eles, é como a terra, dá para ganhá-la na força do remo.
Ilhas O arquipélago de Ilha Grande é formado por 261 ilhas, 169 delas de domínio do Paraná. Destas, menos de 10 são habitáveis. A maior é a Ilha Grande, que começa em Vila Alta e termina em Guaíra, numa extensão de 120 quilômetros. É a segunda maior ilha fluvial do País. O lugar, elevado à Estação Ecológica Estadual, é considerado reserva da biosfera, um lugar classificado como ímpar por pesquisadores de vários países do mundo, que já conheceram a riqueza da fauna e da flora em visita à região.
Nas ilhas, ainda podem ser encontrados animais em extinção como o cervo (ou veado) do pantanal, a anta o bugio ruivo e o jacaré de papo amarelo. Há ainda várias espécies de essências medicinais não catalogadas e outras já conhecidas, como a Pfáfia, utilizada como estimulante pelos japoneses.


