O comércio ainda nem havia aberto as portas quando dezenas de policiais rodaram o Centro de Londrina com as sirenes ligadas, na manhã de ontem, numa tentativa de sinalizar que não há mais o que temer. Não adiantou: um barulho muito maior seria produzido horas depois, no Calçadão da cidade, por uma multidão de cidadãos que aprenderam a duvidar das promessas e ações de seus representantes públicos.
Batizado ''CHEGA DE LUTO'', o protesto que reuniu membros de 40 entidades e centenas de participantes não clamou por um basta somente nas mortes - foram 40 assassinatos e sete latrocínios neste ano, até ontem -, mas também nos roubos, furtos, arrombamentos, sequestros-relâmpago, agressões, ameaças e outros crimes que dominam o noticiário e a atenção da polícia todos os dias.
Durante uma hora, das 10 às 11 da manhã, a cor preta dominou o Calçadão entre as ruas São Paulo e João Cândido. Mil camisetas da campanha foram distribuídas pela Associação Comercial de Londrina (Acil) entre donos e funcionários de lojas; mais de 30 faixas com questionamentos como ''O que é feito dos tributos que pagamos?'' e ''Guarda Municipal, por que não?'' foram levantadas; cruzes e balões pretos foram carregados; apitos e gritos ecoaram. Ignorando possíveis prejuízos, quase todas as lojas do Calçadão e ruas do entorno baixaram as portas por pelo menos 60 minutos.
''Nunca vi nada parecido com isso'', testemunhou o aposentado Idelmo Favaretto, 72 anos, com a vivência de quem chegou a Londrina em 1939 e há muitos anos se senta com outros idosos no Calçadão para discutir os problemas da cidade. As milhares de vozes que se uniram para pedir paz, cantar o Hino Nacional e rezar arrancaram lágrimas de vários rostos, especialmente dos familiares de vítimas de latrocínio.
O médico Marcos Afonso Posso - que em novembro de 2005 perdeu o enteado, Gabriel Rezende Marques Guimarães, 20 anos, morto durante assalto - foi protagonista de um dos momentos mais emocionantes do ato ao subir no palanque montado no local. ''Quero ter de volta meus direitos de cidadão comum. Quero levar meus filhos menores à praça, quero que os jovens possam ir aos barzinhos, quero frequentar uma pizzaria sem medo de uma bala perdida. Quero que o Estado assuma seu dever de proteger a população'', exigiu, lendo em seguida um breve texto em que o pai de Rafael Bernardino Ruiz, 19, vítima do mais recente latrocínio registrado na cidade, agradeceu a Deus pelos ''filhos maravilhosos'' que ganhou.
Foi um dia de pequenas e grandes manifestações. Enquanto uma imensa faixa estampou a palavra PAZ no Edifício América, logo abaixo do Relojão, a dona-de-casa Cleria Dalan, 68 anos, estendeu por longos minutos o braço inchado de uma pós-cirurgia para exibir um pequeno folder do protesto. Ela foi à pé, da Vila Casoni ao Centro, só para engrossar o ato. ''Vi um homem levar coronhadas de um assaltante na minha frente, à luz do dia. Deus abençoe que esse protesto vai servir para melhorar as coisas'', torceu. Pessoas que aguardavam em fila pela abertura de um banco se deram as mãos para rezar um Pai Nosso, logo após a bênção dada por representantes das igrejas Católica e Evangélica.
Às 11 horas, recado dado, a multidão se dispersou e as lojas reabriram. Somente um grupo de estudantes prosseguiu em passeata, tentando prolongar o grito de indignação e mostrar a força da juventude. ''Inconsequência não é fazer revolução, é ficarmos parados e conformados com a situação'', disse Lucas Dias, 15 anos, aluno de Ensino Médio. ''Estamos lutando por aquilo em que acreditamos: paz.''
O comandante do Policiamento do Interior, coronel Celso José de Mello; delegado-chefe da Divisão Policial do Interior, Luiz Alberto Cartaxo Moura; o delegado-chefe da 10 Subdivisão Policial, Sérgio Barroso, acompanharam o protesto de perto.

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