Chega a 10 número de pacientes mortos
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sexta-feira, 27 de junho de 1997
Marccio W. Varella Maringá 
Marcos NegriniHistória se repeteOs pais de Fabiana, com outra filha. Criança enfrentou mesma via crucis que já matou outros pacientes A denúncia da morte da menina Fabiana Mendes Rodrigues, por falta de atendimento adequado, revelada ontem, eleva para 10 o número de vítimas fatais da crise de leitos de terapia intensiva em Maringá. O caso vinha sendo mantido em sigilo pela Secretaria Municipal de Saúde.
Fabiana, que tinha um ano e 6 meses e sofria de problemas no coração, começou a passar mal às 8 horas de terça-feira. Ela foi levada ao HU, e depois ao Posto de Saúde da avenida Tuiuti, na Vila Morangueirinha. Depois, ainda foi encaminhada ao posto de atendimento da Zona Norte (NIS 3), onde morreu, por volta do meio-dia, antes de conseguir vaga em UTI nos hospitais conveniados ao SUS na cidade.
De ônibus, mesmo sabendo que o ambulatório do HU não atende durante o dia sem consulta marcada, o casal foi até ao hospital. Lá, foi aconselhado a levar a criança para o posto da Avenida Tuiuti, no bairro Vila Morangueirinha, onde a família mora. No posto, vendo que o estado da menina era grave, os enfermeiros chamaram uma viatura do Corpo de Bombeiros para levá-los ao NIS 3.
No NIS 3, a criança foi atendida pela enfermeira-chefe, Denise dos Santos Camargo. À primeira vista pensei que fosse um caso de subnutrição. Fabiana estava fora do peso, com 5,4 quilos, peso de criança com seis meses de idade. Pedimos urgentemente uma UTI, mas não havia vaga nos hospitais da região. Pelos exames que fizemos pudemos perceber que ela não tomava o remédio há quatro dias. Ela ficou somente dez minutos viva no posto, depois morreu, por volta das 12 horas, de cianose e falta de ar. Se tivesse sido atendida em UTI logo cedo estaria viva, mas àquela altura não sei se uma UTI salvaria sua vida, conta Denise.
A enfermeira-chefe do NIS conta ainda que a coisa mais difícil aqui é a gente conseguir uma UTI. Às vezes pedimos ao próprio secretário que peça pessoalmente a vaga aos hospitais.
A família Rodrigues mora numa casa velha, de madeira, na Vila Morangueirinha. O aluguel é de R$ 130,00 mensais. Pedreiro desempregado há quatro meses, Antônio, Maria e a filha Fernanda, de cinco anos, estão sobrevivendo graças à ajuda da Pastoral da Criança da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, que fica no bairro.
Segundo Denise, o secretário municipal de Saúde, Ivan Murad, orientou os funcionários a não comentar a morte de Fabiana. Ele pediu que não déssemos nenhuma entrevista sobre o caso, afirmou.
Cardiopatia Em junho do ano passado, Fabiana foi levada pelos seus pais Antônio Mendes Rodrigues, 31 anos, e Maria Aparecida Rodrigues, 37 anos, a uma consulta no HU. Havia uma suspeita de meningite. Feitos os exames, constatou-se uma pneumonia. Um mês depois, o cardiologista do HU Florisvaldo Isildo diagnosticou em Fabiana uma cardiopatia congênita.
Na época, ela recebeu um medicamento para normalizar as batidas do coração e voltou para casa. Mensalmente, a criança fazia consultas e recebia tratamento fisioterápico no HU. Os remédios eram doados à família pela Pastoral da Criança de Maringá. Ela nunca deixou de tomar os remédios, conta o pai Antônio.
Pedreiro A morte mais recente causada pela crise foi a do pedreiro José Carlos Módulo, 43 anos. Ele morreu quarta-feira na Santa Casa de Maringá, depois de aguardar três dias no Hospital Universitário (HU) por uma vaga de UTI. Ele precisava com urgência de uma cirurgia para drenar o sangue de seu cérebro. Módulo foi atropelado no último sábado.
Médicos da Santa casa afirmaram que ele poderia ter sobrevivido se tivesse recebido tratamento intensivo antes. O HU não conta com unidade de tratamento intensivo. Só os hospitais particulares conveniados ao SUS dispõem de leitos de UTI.


