Chamar de chiqueiro é elogio
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 1998
Sid Sauer 
Quando os vereadores de Campo Mourão aprovaram, em abril, a criação de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para atuar na 16ª Subdivisão Policial de Campo Mourão, o objetivo era apurar denúncias de maus-tratos contra os presos. Três meses depois, quando a comissão concluiu seus trabalhos, que chegou a ouvir depoimentos de metade dos cerca de 60 presos, a abordagem acabou sendo bem diferente. Ao invés de maus-tratos, a CEI acabou apurando o péssimo estado da cadeia.
Chamar aquilo de chiqueiro é até elogio, diz o vereador Edevaldo Louzano (PTB), que atuou como presidente da comissão. Tanto é assim, que das 23 páginas do relatório final, elaborado pelo vereador Juvenal Vieira (sem partido), 22 são dedicadas ao mau estado da cadeia. O voto do relator, por exemplo, começa pedindo o envio urgente de recursos para a manutenção das instalações físicas da cadeia. Não apuramos a existência de tortura física, mas os presos parecem torturados pelo ambiente em que estão, diz o vereador Sérgio Martinhago (PT).
Segundo o relatório, que trouxe anexadas 13 fotos mostrando o estado precário da cadeia, os problemas começam na cozinha, onde não existe nenhuma condição de higiene. A afirmação da CEI é amparada por um laudo da Vigilância Sanitária. Não existe a mínima condição de reabilitação de um ser humano num ambiente como o inspecionado, diz o relatório. Um dos principais problemas são as instalações hidráulicas e elétricas. Faltam pias, chuveiros e até vasos sanitários. Além disso, há infiltrações e goteiras.
De acordo com o relatório da CEI, grande parte do corredor se alaga quando chove, há pouca ventilação e a umidade do ambiente é elevada. A falta de chuveiro faz com que os presos tenham que tomar banho com água que cai diretamente do encanamento. O detento fica até uma semana sem tomar banho quando faz frio, frisa o relator. Para piorar, o solário só recebe a luz do sol na hora do almoço, o que praticamente inviabiliza que os presos tomem sol. O estado em que se encontra a cadeia é ofensivo a vários princípios básicos, conclui o relatório.


