Chacareiros produzem em terreno público
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quarta-feira, 25 de junho de 1997
Da Redação 
Quem chega nas 28 chácaras do parque industrial Cacique (Cilo 3), um grande fundo de vale às margens do ribeirão Lindóia (zona oeste), nem imagina que ali exista uma invasão de terreno público. No lugar de pequenos lotes e um aglomerado de famílias, os chacareiros do Cilo 3 estão em terrenos amplos, cobertos por plantações de grãos e frutas. Distante de bairros residenciais, o lugar mantém a tranquilidade de áreas rurais e os moradores vivem com certo conforto.
Apesar dos registros da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) mostrarem a invasão iniciada em 1990, quem viu tudo acontecer garante que foi antes, em meados da década de 80. Luiz Quirino da Silva, 57 anos, plantou em toda a área durante seis anos a partir de 1978, junto com a mulher e os sete filhos.
A corrida para garantir um pedaço de terra de graça começou, conta Quirino, lá por 1985, quando ele se separou da mulher. Naquele ano ele procurou a Prefeitura para dar baixa no contrato, renovado a cada dois anos, que lhe dava o direito de desfrutar da terra para plantio.
Logo depois que devolvi para a Prefeitura invadiram tudo, dividiram e começaram a vender, recorda. Muita gente ganhou muito dinheiro aqui. Segundo ele, na época uma das chácaras foi trocada por um sítio de 25 alqueires, mais dois milhões de cruzeiros. Quirino morou 25 anos na chácara do japonês ali perto. Hoje Quirino mora em casa própria no jardim Maria Lúcia (zona oeste).
Natalísio Sebastião dos Santos, 40 anos, a mulher e os seis filhos moram na chácara desde 92. Nessa época, segundo ele, havia poucas famílias morando ali. Com um certo medo de um dia perder tudo o que investiu nos seis mil metros quadrados, Santos conta que pagou 4,5 milhões de cruzeiros pela chácara. Era um dinheirão, dava para comprar um fusca zerinho, se espanta. Era tudo o que eu tinha. Antes disso, Santos morava num sítio onde cuidava de tudo, na região norte. Santos é o terceiro dono da chácara.
Logo depois que vim para cá saiu uma conversa que a Cohab ia passar o trator em cima das nossas casas, conta, mostrando a intimação da Prefeitura para a desocupação das chácaras. Isso foi em 92, último ano do mandato anterior do prefeito Antonio Belinati. Procuramos o Belinati e ele garantiu que no mandato dele ninguém ia sair daqui e que nem o próximo prefeito ia mexer com a gente. A promessa foi rabiscada e assinada no verso das intimações. O Cheida até liberou água e luz, diz. Eu acho que eles não vão mexer. Mas se isso acontecer... Perder tudo que já fiz? É ruim, né? Quando cheguei aqui só tinha capim. Santos espera a primeira colheita de café para o ano que vem.
Reinaldo Rodrigues, 43 anos, se mudou para uma das chácaras com a família há um ano. Mesmo sabendo que tudo ali pertencia à Prefeitura, ele trocou uma casa no conjunto Panissa (zona oeste). Os 3.400 metros quadrados custaram para ele R$ 15 mil - o valor da casa. Fiz no rolo, porque queria uma chácara. Nem sei se foi caro ou barato. No rolo, já viu... Na chácara dele, funcionava o bar do local, montado pela dona anterior. Apesar da mesa de sinuca na área da frente, o bar foi desativado há quatro meses. O bar veio por acaso, vendia pouco. Demitido da Cacique, Rodrigues pretende começar a ter lucro com as plantações.
Não é nosso, mas a gente cuida. Se a Prefeitura resolver pegar de volta, vamos fazer o quê?. Segundo Rodrigues, nos últimos meses foram realizadas algumas reuniões com um vereador e com a Prefeitura. Mas não decidem nada, lamenta. Em uma conversa pessoal com ele, o prefeito Antonio Belinati teria garantido: ninguém será despejado. Ele disse que está dando um tempo, que agora não pode liberar por causa das outras invasões da Cidade, conta. Ao contrário disso, o prefeito sempre repete que é regularização em fundo é indiscutível e ele não vai permitir. Ontem à tarde, Belinati não foi encontrado pela Folha.
(Edmara Michetti)


