Em apenas dez anos, quase 100 mil pequenas propriedades rurais foram vendidas no Estado Paraná, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Reflexo mais do que imediato de um problema cada vez mais crescente em todo o Brasil, o chamado êxodo rural.
A cada dia, diante das perspectivas cada vez mais desanimadoras da produção agrícola e pecuária, muitos agricultores deixam o campo em busca de um futuro melhor na cidade e para trás vão ficando casas, plantações e animais, que estão sendo ‘‘adotados’’ por um novo tipo de público.
São médicos, advogados, empresários e outros profissionais, que desistiram dos problemas e principalmente da confusão da cidade grande. Caso do advogado e instrutor de vôo Werner Egon Schrappe. Antigo morador do bairro de Santa felicidade, ele hoje é proprietário de uma das chácaras mais famosas de Campo Magro, na Região Metropolitana de Curitiba, a ‘‘chácara do aeroporto’’, como chamam os antigos moradores do local.
Transformada em casa, área de lazer dos netos e escola de pilotagem de ultra-leve, a Chácara Bela Vista era antes um descampado, utilizado para a produção de batatas e verduras. Foi há 20 anos, quando comprou a propriedade já sonhando em morar nela, que Schrappe plantou as primeiras mudas de árvores.
‘‘Foi até engraçado’’, conta o empresário. ‘‘Quando o pessoal da imobiliária nos trouxe para ver as terras já fiquei planejando onde começaria a fazer os acertos, e o resultado é este. Estas árvores todas que você está vendo hoje’’.
Ao todo são cinco alqueires de terra onde há um pouco de tudo. Desde uma criação de gatos, passando por uma coleção de cachorros de todas raças até um hangar onde funciona a escola de aviação. E o melhor: tudo isso a apenas 40 minutos do centro de Curitiba.
‘‘São várias as vantagens’’, garante Schrappe quando questionado sobre os investimentos necessários para manter o lugar. ‘‘Mas a principal delas é mesmo a tranquilidade. Já morei em apartamento e pagava uma nota de condomínio. Mas, mesmo assim, sempre tinha um problema ou um vizinho me incomodando. Aqui não há nada disso. Quando quero isolamento, eu tenho. Quando quero burburinho, dou um pulo até a cidade’’, diz.
Os únicos problemas mesmo, segundo o fazendeiro-aviador, são os raios e o gasoduto Brasil-Bolívia. Os primeiros queimaram o portão eletrônico, único equipamento de segurança da propriedade. E o segundo vai atravessar a chácara, bem ao meio, até o próximo mês de abril.
‘‘É o progresso’’, diz Schrappe. ‘‘A gente foge dele, mas mesmo assim ele ainda consegue atropelar a gente’’, lamenta.‘‘Sei que um dia a cidade também vai chegar até aqui, mas como ainda estou um pouco longe, não sei se estarei aqui ainda quando isso acontecer’’.

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