Resgatar a dignidade, recuperar os vínculos familiares e dar oportunidade de autonomia no futuro. Estas são apenas algumas das propostas do trabalho desenvolvido pelos educadores da Chácara Padre Eduardo Michelis, que fica na localidade de Quatro Pinheiros, em Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba. Vinte e três ex-meninos de rua, com idades entre oito e 18 anos, vivem como uma família. Eles estudam, participam de atividades pedagógicas, dividem o trabalho na chácara e frequentam cursos profissionalizantes.
Segundo o coordenador do projeto, o educador Fernando Góes, especializado em psicopedagogia, os diferenciais da metodologia adotada na chácara são a área rural - ambiente tranquilo e longe das drogas - e a interatividade. Os meninos participam das decisões e têm espaço para discutir suas vidas particulares e opinar sobre tudo o que acontece no local. Ele explica que o projeto foi singular desde a sua concepção. ‘‘A idéia da chácara surgiu de um estudo feito com meninos de rua há 14 anos. A sugestão de uma casa desse tipo na zona rural partiu deles’’, conta.
Os meninos chegam à chácara por intermédio de abordagens de educadores de rua. Eles vão para o local espontaneamente e ninguém é obrigado a ficar. As famílias dos meninos também participam do projeto. Uma vez por semana, elas são visitadas pelos educadores, que tentam orientar a solução de problemas domésticos para favorecer uma convivência melhor com outros filhos.
Uma vez por mês, três famílias passam o dia na chácara, onde se reúnem para discutir problemas comuns. ‘‘Promovemos um grande encontro uma vez por ano, quando todas as famílias vêm passar o dia aqui’’, diz Góes. No mês de julho, os meninos foram passar uma semana das férias na casa de suas famílias. Cada um aproveitou esse período a seu modo, aprendendo a conviver com pais e irmãos e a cumprir a rotina da casa.
Divulgação - O resultado do trabalho com os ex-meninos de rua é reconhecido. A Organização das Nações Unidas para a Infância e a Adolescência (Unicef) está financiando a publicação de dois livros: ‘‘A vida na rua e a rua na vida’’ - que mostrará a metodologia aplicada na chácara para que possa ser adotada por outras entidades ou municípios - e ‘‘A história de nossas vidas’’, no qual os os meninos contam suas experiências familiares, o que viveram nas ruas e a participação no projeto. O trabalho será ilustrado com fotos dos meninos feitas por Rosa Gauditano.

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