Muitos tentam tocar Deus, mas numa visão turva da humanidade não conseguem ver que em sua delicadeza, Ele nos toca como crêem os cristãos reparando a liberdade ainda que cercada pelos muros de uma prisão, como aconteceu ontem pela manhã, durante a celebração do Lava-Pés para cerca de 60 detentos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). A missa foi preparada pela Pastoral Carcerária. Os 12 apóstolos foram representados por detentos.
A cerimônia repetida nas paróquias londrinenses e que lembra o gesto de Jesus antes de ser preso por determinação do governador da Judéia, Pôncio Pilatos - pôs sobre o altar improvisado no pátio central que dá acesso às quatro galerias da PEL, o pedido de Jesus para que os apóstolos seguissem o seu exemplo.
''Não são apenas vocês que estão aqui que têm pecados, mas reconheçamos que, acima de qualquer erro nosso, tem a misericórdia de Deus'', iniciou o rito, o assessor da Pastoral Carcerária, padre José Onero dos Santos. Todos os sábados ele realiza a celebração para os internos, visitando ainda, semanalmente, o 3º Distrito Policial (DP).
Com as mãos estendidas por entre as grades, os internos que acompanhavam a celebração do pátio, davam as costas para o movimento frenético de outros presos. Esses, indo e voltando no chão de concreto, buscando um sentido para a caminhada em vão, que não os levaria a lugar algum, mas que dava conhecimento às pernas que a qualquer momento seria possível mudar o caminho.
Nas mãos dos detentos que representavam os apóstolos ao lado do padre, palavras como violência, omissão, morte, injustiça, medo e guerra, deram liberdade para a consciência. ''Para fazermos visitas como essa é preciso reconhecermos o valor da pessoa'', destacou padre José.
Pescado pelas palavras de alento durante a missa, que molham a vida no vinho da esperança, o interno André Luís Firmino de Oliveira, 20 anos, enxergou o horizonte nos limites da muralha. ''O meu dia-a-dia é tirar a minha cadeia e não deixar a cadeia me tirar'', afirmou Oliveira, revelando o Deus escondido no cotidiano do presídio, que é o mesmo dos pobres, injustiçados e dos que sofrem preconceitos, mas que, acima de tudo, também esperam pelos favores da misericórdia como testemunham os cristãos.

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