O artesão Marcos dos Santos Pelegrini, 29 anos, não tinha motivos para comemorar a inauguração do Centro de Referência do Artesanato de Londrina (Cereal), realizada, em clima de festa, na manhã de ontem. Ele quis aproveitar a ocasião para falar com o presidente da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Wilson Sella, mas acabou desistindo diante de uma multidão formada por autoridades, jornalistas, representantes de classe, curiosos e futuros ocupantes do local.
Pelegrini não pertence a nenhum desses grupos. Trabalhando há alguns anos na Praça Marechal Floriano Peixoto (região central), ele não conseguiu um espaço no Cereal. ''Implorei para arranjar um lugar lá dentro. Entrei com requerimento na CMTU umas dez vezes. E agora, o que eu faço quando me tirarem daqui?'', indaga. Pelegrini não pertence a nenhuma das 22 associações contempladas no empreendimento. Ele questiona os critérios utilizados para definir quem teria direito a um espaço no Cereal. ''Sei que vai ter muita gente trabalhando com produto revendido. Eu faço artesanato de verdade, com lâmina de madeira, e é um tipo de produto que ninguém lá faz'', ressalta.
O artesão José Roque dos Santos, 24 anos, é outro que ficou de fora do Cereal. Ele nem chegou a conferir a inauguração do espaço, ontem. Enquanto a banda tocava alto no evento, ele só ouvia o barulho da lixa raspando o chinelo que preparava para vender em sua ''banca'' improvisada de calçados feitos à mão, também expostos na Praça Floriano Peixoto. ''Quando eu sair daqui, vou ter que carregar tudo isso nas costas pra vender por aí. É muito peso'', prevê. Santos saiu da Bahia há sete anos para tentar a sorte no sul do País.
Além dos vários artesãos que trabalham individualmente na praça, a prefeitura também não deu um destino aos hippies que comercializam seus produtos no local. Para eles, ainda não há solução definida, admitiu o presidente da CMTU. ''O caso deles é outro, temos que respeitar seu estilo de vida. Estamos discutindo a questão mas ainda não achamos um meio-termo para os hippies'', declarou. Quanto aos demais artesãos, Sella afirmou que ''a resistência está vencida''. Ele calculou em cerca de dez dias o tempo para que os 39 artesãos associados das praças Floriano Peixoto e Rocha Pombo se mudem para o Cereal.''O importante é que estou entregando o prédio'', frisou.
A reforma do local ainda não está completa, faltando detalhes como a instalação de vidros na entrada. O espaço tem 54 lojas, sendo 41 no andar térreo e as outras 13 no mezanino. Com a abertura do Cereal, Sella espera beneficiar, direta e indiretamente, cerca de 700 artesãos de Londrina. Até o final da gestão do prefeito Nedson Micheleti (PT), o Município vai custear o aluguel das lojas, no valor de R$7,3 mil. Durante os primeiros quatro meses, também serão custeadas as despesas com manutenção, água e luz.

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