Navegando contra a correnteza do Rio Paraná, a bússola aponta para a morte misteriosa de bugios na ilha Mutum entre os anos de 2000 e 2001, indicando uma possível epizootias de febre amarela silvestre, que poderia adiantar o relógio de uma epidemia urbana.
Respeitamos a imponência da ilha numa viagem pelo véu prateado de águas, onde encontraremos dois pesquisadores isolados no estudo silencioso do comportamento dos primatas não-humanos na mata, para desembarcarmos na primeira vez em que uma equipe de reportagem documenta os passos da pesquisa inédita em pleno território dos macacos.
Domínio que para entrar, os cientistas tiveram que passar por um treinamento realizado pelo Centro Nacional de Primatas, do Pará (PA), o maior centro de primatologia da América Latina e um dos 10 maiores do mundo, que atualmente concentra 25 pesquisas para encontrar vacinas contra a malária e leichmaniose.
Armados com técnicas, como arvorismo, primeiros socorros na selva e tiro ao alvo para aplicação de anestésicos nos animais capturados, os cientistas não conseguem ver, antes da partida do continente, os imprevistos do trabalho, que na mata impõe outros limites: o encontro com felinos, serpentes e a não menos arriscada manobra da casualidade, trilha inesperada que pode terminar num caçador, que não faz discernimento entre ciência e fiscalização.
Amanhã veremos, nesta série de reportagens, como dois pesquisadores passaram sobre o perigo, mas agora acordamos o rio nas primeiras horas da manhã.
Depois de dois dias sem capturar nenhum primata não-humano, a expedição volta com sucesso para o acampamento em Porto Rico. Três macacos-pregos foram examinados e chipados, antes que a liberdade os levasse para a mata novamente, o que permitirá que sejam rastreados por GPS. No total, 70 macacos na região já são conhecidos pelos cientistas, que mediram peso, tamanho, coletando materiais para exames.
A viagem pelo rio da Bacia do Prata, com 1.397.905,5 quilômetros quadrados, a segunda maior do País, demora mais de 1h30 até chegarmos à Fazenda Unidas, em Taquaruçu (MS), onde passaremos o dia, que se soma ao período de 10 dias, que geralmente os cientistas permanecem no alojamento de Porto Rico, mensalmente.
Percurso que se faz a bordo do totó, embarcação para cinco pessoas ou de tamanca, um barco com capacidade para mais passageiros, acomodando também o tempo, que se arrasta como a água, que na ilusão do navegante parece parada sob o casco.
A viagem da ciência tem a paisagem dos bugios da Mutum, onde paramos para deixar o almoço dos pesquisadores acampados.
O cansaço que sobreviverá à noite, quando os dois barcos da missão já estiverem de volta ao continente, não descolorirá as páginas do leitor, que terá a companhia de garças e tuiuius ao lado das explicações do veterinário Walfrido Kuhl Svoboda.
''A partir do trabalho que estamos realizando, tentarei criar um modelo de vigilância. Se tenho epizootias, uma estimativa dos animais e a previsão de quantos pontos de coleta preciso ter para ver se tem febre, poderemos ter um esquema em que fique fácil depois que terminarmos esse levantamento, treinar outras equipes para o trabalho no Paraná'', afirmou Svoboda, que participará em Brasília (DF), em maio, de uma discussão sobre o manual de epizootias do Ministério da Saúde.
''Agora tenho experiência de campo e posso contribuir mais. Acredito que falte coisas de cunho prático'', acrecentou, pretendendo padronizar também técnicas laboratoriais.
Uma pausa na explicação do veterinário, antes dos barcos serem lançados no rio é um tempo de leitura suficiente para desembarcarmos na Fazenda Unidas, castigados pelo sol, mas extasiados pela natureza surpreendente, pendurando macacos na mata ciliar estreita, divida por canais do Rio Baía, que nos encontra numa curva do Paraná.
Até desembarcarmos, o biólogo Gustavo Monteiro Teixeira já estaria a caminho de Londrina, mas estendeu sobre o rio uma das dúvidas que os cientistas tentam esclarecer, através de sua participação no trabalho em vigilância, que entre outras coisas definirá o quanto os animais têm contato entre si.
''Para as questões relacionadas à saúde, a gente entende que existência da variabilidade genética significa que não está tendo fluxo de macacos, portanto não seriam veículos para carregar o vírus. Uma das interrogações que temos é como o vírus caminha de um estado para outro'', explicou o biólogo.
O estudo também é importante para a preservação da espécie, já que a variabilidade genética também identifica a incidência menor de acasalamentos entre animais com algum grau de parentesco, o que aumenta o risco de problemas genéticos. Teixeira realizará investigações no DNA dos primatas, através do sangue coletado.
''Por meio de marcadores moleculares conseguiremos comparar os níveis de variablidade genética entre os grupos de macacos'', explicou o biólogo.
Com os pés em terra firme na Fazenda Unidas, a euforia dos cientistas com a captura de dois machos de macaco-prego pela manhã, antecipou o assobio - sinal de aviso sobre mais um primata - que caiu na armadilha na final da tarde.
Era uma macaquinha que a veterinária Carmen Lúcia Scortecci Hilst, horas depois e com tempo até para passar pela vida da tia famosa, a escritora Hilda Hilst, anestesiou o animal ainda na gaiola de contenção.
Atraídos por frutas, principalmente manga, os filhotes são os primeiros a visitar as armadilhas. Porém, o pesquisador camuflado na mata, escondido numa cabaninha, pronto para acionar a armadilha, espera pelos adultos. Essa é uma fêmea que, como diz Carmen, é ainda ''mocinha'' por não ter filhotes.
O procedimento, que não dura mais do que 20 minutos para não estressar o macaco, começa com a coleta de sangue, a colocação do chip nas costas do primata entre os braços - padrão determinado pelo Ibama.
''O chip tem um código numérico, sendo introduzido através de seringa. Se for recapturado saberemos se está com alguma doença ou se encontrarmos o seu cadáver, faremos necropsia para sabermos do que morreu'', disse a veterinária, lembrando que para não espantar possíveis macacos que estejam na região, a pessoa que está de campana não costuma deixar o posto na primeira captura do dia, permanecendo várias horas, sendo ''devorado'' pelo calor, mosquitos e formigas.
É escasso o número de trabalhos publicados sobre o padrão hematológico em espécies de vida livre. Mestrados como o da veteriária Karina Keller Marques da Costa Flaiban - orientada pela professora, Mara Regina Stipp Balarin, do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da UEL - e que também integra o trabalho em vigilância em Porto Rico, ajudarão a conhecer o status sanitários dos primatas não-humanos, traçando a correlação com a febre amarela silvestre e outras arboviroses. Secreção ocular, coleta de fezes são analisadas ainda para verificar se outras doenças podem estar matando animais.
Os cientistas esperam pelo menos três horas até que o primata se recupere do anestésico para que, livre na mata não seja alvo de predadores.
A macaquinha recuperou-se do susto de estar presa numa gaiola e de enfrentar tantos humanos lhe observando. O pôr-do-sol anunciou que o véu prateado do rio se cobriria de noite: hora de voltar para o laboratório em Porto Rico, acender mais um pouco da luz de ciência, tentando mais uma vez segurar o relógio, evitando os primeiros minutos de uma possível epidemia.

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Amanhã: reportagem entra na mata com os pesquisadores, acompanhando o estudo sobre o comportamento dos primatas não-humanos que poderiam contribuir para o surgimento da febre amarela urbana
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