Das ilhas do Rio Paraná pode sair o alerta sobre o risco de uma epidemia de febre amarela urbana no País, doença que a maioria dos brasileiros nascidos depois de 1942 - ano em que foi erradicada - desconhece a letalidade, que chega a 50% dos que desenvolvem a forma grave. A moléstia não tem tratamento específico.
A reitrodução no final da década de 60, no Brasil, do Aedes aegypt, o mesmo mosquito que transmite a dengue, provavelmente embarcado no Caribe em pneus contrabandeados, trouxe de volta a ameaça iminente. Pesquisadores paranaenses, num trabalho inédito de vigilância à febre amarela financiado pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, através da Vigilância em Saúde, tentam rastrear, os primeiros indícios da doença em primatas não-humanos, reservatórios da forma silvestre, que denunciariam uma possível explosão da moléstia infecciosa febril aguda. O macaco é o sentinela que acenderá a luz de perigo. Quando a doença for diagnosticada nele, estaremos correndo risco.
Esta série de três reportagens levou a equipe da Folha a uma expedição até um dos habitats dos macacos-pregos e bugios, através das ilhas do Paranazão, rio que tem atracado nas suas correntezas um dos maiores conjuntos de arquipélagos fluviais brasileiros, número menor apenas que o do Rio Negro.
Contornando suas águas imensas até a Mutum, uma das maiores ilhas do rio, com 437,7 alqueires, desembarcamos entre os anos de 2000 a 2001, para entendermos porquê os pesquisadores estão estudando os macacos da região.
Através da mata que cobre a ilha, os relatos de mortes misteriosas de bugios na Mutum naquele período, são os sinais de uma epizootias - a morte de muitos animais ao mesmo tempo e lugar -, que poderia preceder a ocorrência em humanos.
Novas mortes de macacos podem ser o sinal, que as equipes de saúde paranaense e, recentemente as do Mato Grosso do Sul (MS), através de um acordo de cooperação técnica, não estão esperando para tomar medidas de prevenção e controle neste trabalho de vigilância inédito, orçado em cerca de R$ 1 milhão.
A suspeita inicial das causas das mortes na Mutum recaiu sobre a febre amarela silvestre, que não é possível ser erradicada, com o vírus circulando naturalmente nas matas. O diagnóstico não foi confirmado porque somente foram encontradas as ossadas dos primatas.
O incidente nos conduz ao turístico município de Porto Rico (95 quilômetros a Noroeste de Paranavaí), com cerca de 2.800 habitantes, onde os pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Estadual de Londrina (UEL), estão baseados.
A região é considerada área de transição, com evidência de circulação viral esporádica.
Da antiga sede da Funasa na cidade, a beleza da ilha Porto Rico, que esconde atrás de sua vegetação a Mutum, a preocupação do veterinário Walfrido Kuhl Svoboda, professor de Saúde Pública no Campus de Palotina, da UFPR, agita as águas logo à frente.
Svoboda defende pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), a tese de doutorado adotado pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná como trabalho de vigilância em febre amarela, reunindo o esforço de veterinários, biólogos e agentes de saúde na prevenção à doença, que poderá servir de modelo para todo o país.
O resultado da pesquisa formatará a edição de um manual. ''Paralelo ao trabalho de vigilância, teremos um estudo do perfil sanitário dos animais'', explica Svoboda.
As preocupações do pesquisador com o reaparecimento da febre amarela urbana se justificam porque a proliferação do Aedes aegypt, mosquito transmissor da dengue, é a bala na agulha para uma epidemia, como acredita o orientador da tese, Italmar Navarro, doutor em Medicina Veterinária da UEL, na área de Zoonoses/Saúde Pública.
''A proliferação do mosquito da dengue reúne condições para uma explosão da doença'', aponta Navarro.
O gatilho poderá ser disparado quando uma pessoa não vacinada, ou que tenha sido imunizada há mais de 10 anos, entrar numa área de risco para febre amarela silvestre. Um turista, por exemplo, que acabou sendo picado por um dos mosquistos transmissores da doença, dos gêneros Haemagogus ou o Sabethes.
O roteiro já utilizado pelo cinema: após um misterioso vírus dizimar uma tribo africana, um médico tenta estudá-lo. Mas um macaco contaminado acaba disseminando a moléstia para a população americana no suspense ''Epidemia'' (Outbreak, 1995, direção Wlfgang Petersen).
Deslicando a ficção, um turista ao se contaminar na mata, em que primatas não-humanos são reservatórios da febre amarela silvestre, poderá levar na bagagem a doença.
Ao voltar para a cidade, ele pode ser picado pelo Aedes aegypt, transmissor da dengue e da febre urbana, acionando a epidemia da doença ao infectar outras pessoas.
No curso d'água do Paranazão, a pesquisa paranaense navega longe dos registros de febre urbana no continente africano, que nos últimos anos relacionou casos em Burkina-Faso (1983), com 286 mortes e na Nigéria (1986-1988), onde surgiram mais de 30 mil casos e 10 mil mortos.
Porém, os pesquisadores observam o rio,logo nas primeiras horas da manhã ao sairem para mais um dia de campo e captura de macacos - como veremos na matéria de amanhã -, sabendo que o véu prateado de água pode ser um corredor, que transporta o vírus.
Com os pesquisadores entraremos na mata, onde os macacos são cevados durante 15 ou 20 dias até cairem nas armadilhas. Acompanharemos a coleta de materiais, como sangue, pêlos e secreções dos animais, que serão analisados nos vários projetos do trabalho piloto em vigilância da arbovirose - doença causada por mosquito.
''Atualmente, os exames em primatas não-humanos são realizados no Instituto Evandro Chagas, no Pará. Porém, acaba encarecendo. O Paraná quer fazer um esquema de coleta e análise. No futuro, teremos uma técnica padronizada, diferente do Evandro Chagas. Uma técnica simples, que não precisa de biotério. Tentaremos melhorar a técnica ou torná-la mais simples, fazendo o rastreamento, enviando somente o que é problema para o Pará'', afirma Svoboda, destacando que as análises iniciais estão sendo realizadas nos laboratórios da UEL, que irá concentrar os diagnósticos.
Nos próximos dias navegaremos por esse corredor, que ao tocar com suas águas o pôr-do-sol, divide a paisagem com alguns jacarés e sucuris, que vão ao encontro do MS, onde o nosso barco ancorará.
No continente, o possível corredor para a febre tem uma faixa de vegetação, habitat uma espécie de macaco-prego e de bugio, primata ameaçado de extinção, dono exclusivo entre os macacos do território das ilhas.
Pregos diferentes dos que estão no lado paranaense são encontrados no MS. Animais que se deslocam nessa imensa área, atrás principalmente de comida - existem relatos de ribeirinhos sobre bugios atravessando o rio a nado.
Conheceremos um pouco dos hábitos dos macacos, que com a conclusão dos trabalhos dos pesquisadores em Porto Rico, responderão se realmente, a arbovirose está deixando a área de transição através do rio, podendo desaguar nas cidades numa nova epidemia de febre amarela urbana.
Leia amanhã: o dia de campo e como os pesquisadores cruzam dados para identificar o surto de febre amarela silvestre

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