Jataizinho - Atribui-se ao desenvolvimento de Londrina nas décadas de 40 e 50 o primeiro grande salto da produção das olarias e cerâmicas de Jataizinho (Norte), vindo a seguir a melhor fase por conta dos financiamentos do Banco Nacional de Habitação (BNH) nos anos 70. Mas a conjuntura dos anos 80, a ''década perdida'', foi terrível e a tradicional Cerâmica Bela Vista atualmente é um símbolo quebrado do período de prosperidade. Desativada na década de 90, a cerâmica hoje tem os barracões e casas ocupados por invasores, que também lotearam o terreno e estão vendendo ''direitos''.
Mas o que está invadido ainda não foi penhorado na ação trabalhista contra Dionísio Striquer & Filhos, movida em setembro de 1994 por 17 empregados, um dos quais com 32 anos de serviço, informou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Indústrias da Construção e do Mobiliário de Jataizinho e Ibiporã (Sintracon), Ricardo Vieira. Os autores da ação já receberam aproximadamente cinco alqueires da família Striquer.
O alqueire está avaliado entre R$ 50 mil e R$ 60 mil, mas a área não cobre a dívida trabalhista, garante Vieira, apesar de não ter em mãos o montante. O sindicato vai requerer a penhora de mais três alqueires aproximadamente, onde se encontram os barracões da cerâmica e casas de moradia, entre outras benfeitorias. Segundo o advogado do Sindicato, Renato Lima Barbosa, o imóvel não foi tomado por nenhum banco credor. Caso seja penhorado na ação, o sindicato exigirá a saída dos invasores.
Só não derrubaram as chaminés, mas o quadro é desolador e comove quem acompanhou a boa fase da cerâmica. ''Era uma beleza'', afirma Vieira, que conhece a Bela Vista desde 1973, embora nunca tenha trabalhado lá. Acha lamentável que tenha havido depredação e furto de materiais. Demoliram os fornos para levar os tijolos, mesmo com os empregados tentando proteger o patrimônio.
''Um patrimônio de longo tempo, tanto é que Londrina, Cambé e Rolândia foram cobertas com telhas nossas'', lembra o advogado Albino Striquer, filho do fundador da cerâmica, Dionísio Striquer. ''Na fase de ouro em 1973, o governo investiu no BNH e a procura por tijolos e manilhas teve um crescimento muito grande, nossa cerâmica se destacava em manilhas, cuja procura aumentou 10, 20 vezes.''
Na administração do prefeito Dalton Paranaguá (1969-1973), a Cohab fora credenciada agente financeiro regional do BNH. Só em Londrina, a construção de casas populares saltou de 1.042 nas administrações Paranaguá e de José Richa (1973-1977) para 13 mil no primeiro mandato de Antônio Belinati (1977-1982). Albino relata que as olarias, até então produzindo tijolos maciços, compraram máquinas e se transformaram em cerâmicas, que produzem tijolos furados. E a produção de um mês (30 mil, 40 mil peças por olaria) passou a ser diária.
Contrariando Dionísio Striquer, os filhos modernizaram a Cerâmica Bela Vista, aparelhando-a também para produzir tijolos, ''Papai não acreditava em tecnologia, mas meu irmão Rubens fez curso de cerâmica.'' Por volta de 1980, Dionísio deixou tudo por conta dos filhos (Albino, Arnaldo, Orlando e Rubens). Eles investiram em mais tecnologia, porém a economia já estava mudando e o BNH parou (seria extinto em 1986). Em fevereiro de 1980 ''não tinha mais mercado para as cerâmicas'' e entrou a concorrência dos tubos de PVC, mais práticos do que as manilhas.
Albino calcula que o mercado das olarias e cerâmicas de Jataizinho que era de quatro milhões de peças por mês saltou, com o advento do BNH, para 11 milhões e chegou a uma superoferta de 12 milhões. Com o excedente, o preço do milheiro no mercado caiu para a metade do custo de produção em 1983. ''Por que não paramos? Tínhamos 72 empregados, alguns com mais de 10 anos de casa, com que dinheiro indenizá-los? E a empresa já estava devendo por ter comprado máquinas e uma pá-carregadeira.''
A inflação de 100% ao ano entre 1980 e 82 evoluiu para 200% em 83 e atingiria 1.700% no final da década. Sucederam-se os planos econômicos, cessaram os investimentos, quem tinha dinheiro punha na poupança. Nesse panorama, as reclamações trabalhistas começaram a consumir o patrimônio da empresa e não havia saída. ''Cerâmica no vermelho, negócio ruim, ninguém queria comprar.'' Albino, que se retirou da sociedade em 1988, conclui que o governo ''fez um saque contra o futuro'', pois a seguir veio a recessão. A cerâmica parou no decorrer da década de 90.

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