James Alberti
De Curitiba
Há dois meses um casal de urubus tem sido o centro da atenções de quem passa pelo andar térreo do Setor de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná, no Centro Politécnico, bairro Jardim das Américas, em Curitiba. Para reproduzir em segurança, a fêmea ocupou o jardim interno de um corredor, no qual passa por semana cerca de seis mil estudantes. Pelo lugar inusitado, que é protegido por paredes de vidro, e pela coincidência na ‘escolha’ do departamento, as aves de rapina viraram atração. A visita se repete há quatros, segundo o vice-diretor do setor, Marcelo Iacomini. Eles chegam em maio e ficam até outubro, quando os filhotes aprendem a voar.
Já no primeiro ano, o casal virou o xodo dos estudantes. Numa assembléia, o urubu acabou se tornando o mascote do curso de Biologia. ‘‘Tinham outros desenhos, mas a escolha foi unânime’’, conta a estudante Karen Kristina Pereira, 25 anos. Depois da eleição, o mascote foi parar em adesivos e camisetas do curso - uma delas usada pela própria Karem.
O interesse geral pelos urubus aumentou ainda mais desde anteontem, quando nasceu um filhote. Neste ano, a fêmea chocou dois ovos. Pela experiência dos anos anteriores, Karen afirma que o outro filhote deve nascer entre dois e quatro dias depois que o primeiro. Para o estudante Rafael Metri, 22 anos, colega de Karen, com as aves o jardim ganhou uma finalidade durante sete meses do ano. ‘‘Era uma área que não servia para nada, agora serve’’, diz. Nem mesmo o regurgitar da ave tem incomodado. Segundo o professor de zoologia, Rodney Cavichioli, o urubu regurgita quando sente-se acuado pelo assédio dos alunos. ‘‘Fede para caramba, mas não incomoda ninguém.’’
Há, no entanto, uma voz dissonante no prédio. Baseada na superstição, a opinião do diretor do Setor, professor Oldemir Mangite, é de que os urubus não dão muita sorte, ao contrário. Para justificar a posição, ele lembra os cortes do governo Federal no orçamento da UFPR. Sem querer entrar em polêmica com os amantes da ave, o professor revela que o que separa o jardim - e os urubus - do setor financeiro do departamento é apenas uma fina parede de vidro. Mesmo assim ninguém sabe qual a culpa dos urubus nos cortes de recursos. Pelo sim pelo não, o professor nega-se até mesmo a falar no assunto.

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