Uma operação de combate ao contrabando e descaminho realizada ontem pela Polícia Federal e Receita Federal no Camelódromo Central de Londrina, na Rua Mato Grosso, gerou uma onda de revolta que forçou o fechamento das lojas, shoppings e até de agências bancárias em todo o Centro da cidade. Após ser contida com bombas de efeito moral e spray de pimenta, a multidão enfurecida formada por camelôs e funcionários do Camelódromo saiu descontrolada pelas principais ruas comerciais da região depredando fachadas e intimidando quem se arriscava a contê-los. O Centro ficou ilhado e os pedestres foram impedidos de circular. Na confusão, duas pessoas ficaram feridas. Os ambulantes prometeram continuar os protestos hoje.
A operação, batizada de ''Capitão Gancho 2'', contou com a participação de 100 policiais federais, cerca de 200 fiscais da Receita, mais de 100 policiais militares e aproximadamente 50 ajudantes que ficaram responsáveis por embalar as mercadorias apreendidas nos 316 boxes e embarcá-las em caminhões-baú. O dia nem tinha amanhecido quando o comboio - liderado por viaturas da PM que bloquearam todo o trânsito na região - estacionou em frente ao Camelódromo. Às 6h20, os agentes conseguiram entrar e deram início à ação, sem a presença de nenhum dos proprietários dos boxes.
Os primeiros camelôs a chegarem foram pegos de surpresa. ''Foi sacanagem, porque tinham que fazer isso na cidade inteira'', reclamou o dono de um box que comercializa bonés. ''Eles querem quebrar as nossas pernas. É uma perseguição'', desabafou o presidente da associação dos camelôs, Rogério Gonsales, lembrando que quase duas mil pessoas correm risco de ficarem sem fonte de renda com o fechamento do principal ponto de comércio de produtos importados e pirateados da cidade. Chorando, a funcionária de um box que comercializa celulares disse que estava com medo de perder o emprego conquistado há sete meses. O gerente de uma financeira na rua Sergipe apoiou os manifestantes. ''O problema é que a Prefeitura apoiou o camelódromo, liberou o alvará e agora não tem mais como consertar'', argumentou.
Com a chegada de mais ambulantes, a aglomeração se formou e o tumulto foi inevitável. Às 9 horas, cerca de duas mil pessoas saíram pelas ruas do Centro obrigando os comerciantes a fecharem as lojas que iniciavam mais um dia de trabalho. Até uma mulher com uma criança de colo tomou parte da confusão.
Com apitos e buzinas, rapidamente os manifestantes chegaram em frente ao Terminal Urbano, onde interromperam o tráfego. Lá, os ambulantes que vendem lanches também engrossaram o protesto com a alegação de que a ''Prefeitura não está renovando o alvará''. A Polícia Militar, que acompanhou de perto a movimentação, foi hostilizada em alguns momentos e pequenas confusões aconteceram. Num dado momento, um grupo de jovens em perseguição a um rapaz que queria furar o bloqueio acabou por derrubar a aposentada Tereza Antonieta de Lima, 76 anos, dentro do terminal. Ela teve um corte profundo na nuca e foi levada pelo Siate para o Hospital Evangélico, de onde foi liberada à tarde.
Aos gritos de ''queremos trabalhar'' e ''vai prender ladrão'', os manifestantes retornaram ao Calçadão onde invadiram o Shopping Royal Plaza. Houve confronto com seguranças particulares e danos ao patrimônio. Dali, seguiram direto para a sede da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), na Rua Minas Gerais, que foi alvo duas vezes da fúria dos ambulantes.
Os manifestantes se reagruparam e rumaram de volta pela Rua Sergipe até a entrada do Camelódromo, onde foram recebidos com bombas de efeito moral quando ameaçaram se aproximar do cordão de isolamento feito por policiais federais. Estilhaços atingiram as pernas do ex-camelô Ulisses Sabino, atual sócio de um camelódromo na Zona Norte - que prevê investimento de R$ 1 milhão. Ele foi socorrido por uma viatura da PM. Os manifestantes em fuga saíram correndo ainda mais revoltados, chutando portas de aço e atirando pedras em fachadas de vidro. Três lojas foram depredadas.
De acordo com o tenente-coronel Luiz Carlos Menezes Deliberador, comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, os danos serão investigados: ''Quando os autores são identificados, nós podemos efetuar a prisão em flagrante. Agora, como o dano ao patrimônio foi causado por uma turba, será aberto um inquérito; nesse caso nós precisamos intervir.''
Ao serem contidos pela Polícia Militar, os manifestantes continuaram pressionando o comércio a manter as portas fechadas e retornaram para a frente do Terminal Central, onde ficaram concentrados até por volta do meio-dia. Depois, a multidão se reorganizou e retornou para as proximidades do Camelódromo, desta vez a certa distância dos policiais federais. ''Se for preciso, vamos fechar por mais um mês o comércio da cidade. Só vamos parar quando o Camelódromo reabrir e pudermos voltar a trabalhar'', avisou um dos líderes da manifestação.

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