A indiazinha caingangue A.P., quatro anos, pela primeira vez na vida atingiu o peso ideal para a idade dela 14 quilos. Há oito meses, quando foi trazida pela Fundação Nacional do Índio (Funai) da Reserva de São Jerônimo da Serra (95 km ao sul de Cornélio Procópio), ela pesava 7,9 quilos, estava subnutrida, com sarna por todo o corpo e piolhos.
Apesar de ter se recuperado, A.P. nunca vai ser uma garotinha normal. Ela tem uma doença chamada encefalopatia um tipo de paralisia cerebral, consequência de uma meningite mal cuidada. A Folha noticiou o caso de A.P. em fevereiro. O desenvolvimento da menina aconteceu graças ao atendimento do Centro de Apoio à Recuperação Infantil (Cari), uma entidade fundada em Londrina há dois anos e meio e que já recuperou mais de 80 crianças.
O Cari é um projeto inédito desenvolvido pelo Centro Espírita Allan Kardec e mantido por empresários da cidade. O objetivo é recuperar crianças que tenham tido alta hospitalar, mas que ainda precisem de cuidados especiais de alimentação, higiene e medicação. É o caso de G., de um ano, que está no Cari há quatro meses para ganhar peso e se fortalecer antes de enfrentar uma cirurgia cardíaca.
A maioria das crianças internadas no berçário foi vítima de maus tratos. D., oito meses, chegou na semana passada. Ela pesa menos de quatro quilos. A mãe trabalha na lavoura, deixava a filha com a avó, que se '' esquecia'' de alimentar o bebê. ''Nos primeiros dias a gente fica agoniada de ver o estado de ansiedade dela'', conta a enfermeira Iraci Silva.
Iraci vai de berço em berço, contando as histórias das crianças. Ela sabe o número de dias que cada uma está no Cari. O trabalho de recuperação de crianças subnutridas leva meses, às vezes anos. Algumas, como A.P., não podem voltar para casa porque precisam de atendimento especializado. Muitas são devolvidas para as famílias, outras a Justiça entrega para adoção. Todos os casos são acompanhados de perto pelos funcionários do Cari: ''Nós fazemos questão de saber como elas estão indo'', garante o presidente da entidade, o engenheiro Antonio Galindo Moreno.
O Centro permite que os pais visitem e até acompanhem as crianças em tratamento mas as visitas não são comuns. A maioria das famílias raramente aparece para ver as crianças. O pequeno G. nunca recebeu uma visita. Às vezes a visita é proibida, como no caso da menina K., um ano, que se recupera de uma pneumonia. A mãe agredia tanto a criança que chegou a bater nela dentro do hospital. A Justiça proibiu o contato entre as duas. Alguns dias de cuidados e carinho foram o bastante para devolver a tranquilidade e a alegria da garotinha. Segundo as enfermeiras, ela é a criança mais sorridente do Cari.

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