O centro oferece os cursos técnicos em agropecuária e meio ambiente e fica em uma área de 91 hectares
O centro oferece os cursos técnicos em agropecuária e meio ambiente e fica em uma área de 91 hectares | Foto: Fotos: Ricardo Chicarelli



Apucarana - Quem passa pela rua e vê o colégio de muro baixo e entrada que mistura sua construção entre alvenaria e madeira não imagina que alguns passos depois da porta principal está uma grande fazenda. O terreno integra o Centro Estadual de Educação Profissional Agrícola Manoel Ribas, de Apucarana (Vale do Ivaí), que no dia 2 de abril comemora 60 anos de existência. A escola é referência no ensino médio profissionalizante voltado para a área rural.

O centro oferece os cursos técnicos em agropecuária, nas modalidades integrado (junto com o ensino médio) e subsequente; e meio ambiente, este somente no modelo subsequente. São 91,87 hectares e aproximadamente 800 metros quadrados de área construída, que atendem 350 alunos das mais diversas idades, mas principalmente jovens. São meninos e meninas que vêm de cerca de 60 municípios paranaenses, e até de outros estados. Cento e cinquenta vive em regime de internato.

"Isso mostra a importância do agronegócio para o Brasil. São jovens com ligação com o campo, com pais donos de terras ou que trabalham na zona rural. Muitos estudaram no colégio e hoje são os filhos. Todo o ano temos grande procura por vagas e é sinal da relevância do Norte do Paraná para outras regiões, pois temos uma agricultura diversificada. Somos reconhecidos pelo nível educacional voltado para aquilo de mais atual que está no campo", destaca Evanildo Mantine, engenheiro agrônomo que é responsável técnico pela parte agrícola da instituição e que trabalha no local há 35 anos, sendo 25 como diretor.

Ana Carolina Amora é de Guaraci, está no último ano do curso e pretende fazer faculdade de medicina veterinária
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FORÇA FEMININA
Segundo a diretora da instituição, Rosi Pimenta Campos, os últimos anos apresentaram mudanças no perfil de quem busca o ensino agropecuário. "Antes só vinham para a escola porque o pai era agricultor e incentivava. Isso representava 80% dos alunos. Hoje eles são plurais e têm uma visão além, percebendo o estudo aqui como um caminho para depois fazerem uma faculdade ligada à área. O campo é tecnologia, não mais a ideia de roça", avalia. "Temos alunos formados de destaque em várias entidades importantes e trabalhando em outros estados do Brasil, principalmente Mato Grosso, Bahia, Goiás e Pará", acrescenta.

Neste contexto, a representatividade feminina cresceu na escola. Se no passado eram duas ou três matriculadas, no máximo, atualmente são 61 mulheres estudantes, o que significa 16% do total. "Elas quebraram paradigmas de que mulher não pode fazer o mesmo serviço do homem. Pelo contrário, e isso é percebido nas fazendas também, onde a presença feminina deixou de significar cuidado com a casa", ressalta.

FUTURO
Um pouco do sentimento do campo no meio da cidade, o centro educação agrícola quer fortalecer cada vez mais esta relação de oportunidade para os jovens, corroborando para a manutenção do agronegócio. "Temos como objetivo, a curto prazo, terminar de construir mais três alojamentos, sendo um exclusivo para meninas. Também é nossa meta construir um espaço de convivência", projeta a diretoria. A licitação para o acabamento dos dormitórios deverá ser publicada em agosto.

Para a comemoração dos 60 anos está prevista uma programação especial no começo de abril. Na primeira semana do mês o colégio estará aberto para visitação de ex-alunos. No dia 2 está previsto um momento de ação de graças, enquanto que no dia 7 irá acontecer um jantar dançante. Como mais uma vitrine para a comunidade, será realizado no final de 2018 o Expoagri, exposição dos projetos desenvolvidos pelos alunos e que anualmente acontece.

No Paraná são 18 colégios agrícolas e um florestal. Na instituição de Apucarana trabalham cerca de 100 funcionários, sendo 53 professores. Entre os problemas que eles enfrentam estão constantes furtos de animais e equipamentos, já que o longo terreno não possui grade de proteção com altura suficiente para inibir este tipo de ato criminoso.

'Só não fechamos porque a sociedade apoiou'

Apucarana – O Centro Estadual de Educação Profissional Agrícola Manoel Ribas, de Apucarana, teve vários outros nomes e sua origem está estreitamente ligada à colônia japonesa, que tinha interesse no desenvolvimento técnico na agricultura. Inicialmente, o espaço pertencia à Rede de Escolas de Trabalhadores Rurais, que mantinha convênio com a Liga Desportiva Norte Paranaense. Na época, era ofertado apenas o curso que hoje equivale ao ensino médio. Em 1960 foi transformado em Escola Agrícola de Apucarana de Ensino de Grau Médio, sendo que em 1964 foi autorizado o funcionamento em parceria com o governo do Estado.

Na década de 1970, a escola se integrou à rede estadual de ensino, quando foi aprovado projeto de reorganização, o que permitiu que estudantes de outras localidades e estilos de vida pudessem se matricular. Neste período eram oferecidos quatro cursos. O nome, Manoel Ribas, foi dado em homenagem ao interventor que solidificou a Companhia de Terras do Paraná. "No começo de 1990 passamos por muitas dificuldades, pois houve uma extinção de cursos profissionalizantes. Chegamos a ficar com apenas uma turna. Só não fechamos porque a sociedade apoiou que continuássemos funcionando", relembra Evanildo Mantine, responsável técnico pela parte agrícola da instituição.

ESTRUTURA
Reforçando sua estrutura com o passar do tempo, o estabelecimento de ensino chega nesta comemoração de seis décadas compreendendo terreno com biblioteca, laboratório de informática, de solos, química, física e matemática, lavanderia, agroindústria, laticínio, alojamentos e sala multimídia, entre outros espaços. São 40 alqueires de terra de unidade didática produtiva, com plantações de soja, milho e que conta com diversos animais, como aves e vacas.

Além das disciplinas que integram currículo do ensino médio, os alunos têm aulas sobre bovinocultura, suinocultura, ovinocultura, avicultura de corte, manejo de grandes culturas, horticultura, entre outros. Para estes o ensino é integral e com duração de três anos. "No curso de meio ambiente, que existe há dez anos, formamos turmas a cada seis meses e também recebemos pessoas de várias cidades. Este é apenas noturno e subsequente. Temos casos de idosos que adquirem área rural e buscam aprender na escola sobre grandes culturas e meio ambiente, pois têm uma preocupação com este assunto", conta o vice-diretor Anderson José Bellini.

Empresas buscam estagiários na escola

"Minha família está orgulhosa de mim", afirma Denis Oliveira, do distrito de Guaravera
"Minha família está orgulhosa de mim", afirma Denis Oliveira, do distrito de Guaravera



Deixar família e amigos para começar a trilhar a estrada da educação voltada ao campo no Centro Estadual Profissional Agrícola Manoel Ribas, de Apucarana, muitas vezes é o principal desafio dos jovens. Estudantes homens de outros municípios, que fazem o técnico em agropecuária junto com ensino médio, acabam tendo direito a uma vaga dos dormitórios. Já as mulheres de fora da cidade vivem em repúblicas. São três anos de uma rotina com poucas visitas à cidade natal e com estudo de até 19 disciplinas de uma só vez, dependendo do semestre.

Beatriz Ferreira, 16, é natural de Ivaiporã (Noroeste). Filha de um militar e uma empresária, ela "assustou" os pais quando disse queria cursar técnico em agropecuária. "No começo eles não gostaram muito. Vieram conhecer e acabaram se convencendo. Nos primeiros meses foi difícil para mim a distância, até chorava, mas vi que era uma experiência boa para a vida", reconhece.

Filho de uma família proprietária de um sítio na região do distrito de Guaravera (zona sul de Londrina), Denis Maicon Lima de Oliveira, 18, quer usar o conhecimento adquirido na escola para ajudar os pais. "Quero criar programas dentro do sítio, como manejo do solo, que é essencial na agricultura. No começo eu não queria estudar aqui, mas vi que era uma boa ideia e me adaptei. Minha família está orgulhosa de mim", celebra.

De Guaraci (Centro-Norte) e no último ano do curso, Ana Carolina Amora, 20, pretende fazer faculdade de medicina veterinária. "Convivo mais com os amigos e professores do que com minha família, que vejo duas vezes por mês. Estava planejando prestar vestibular para agronomia, porque gosto de pecuária, mas já estou mudando a partir do que estou aprendendo no centro educacional. Vou sentir muita falta quando sair da escola", diz ela, que espera em breve colher os frutos de sua dedicação.

ALOJAMENTOS
Para morar em algum dos dois alojamentos que integram a área da instituição, os estudantes passam por entrevista, na qual é vista a condição da família. Aqueles que mais precisam têm prioridade. Eles têm direito a alimentação, aulas de espanhol ou esporte durante a noite, autorização para usar o laboratório de informática para trabalhos e seguem regas para tornar a convivência harmoniosa. Os jovens moradores costumam sair para visitar a família na sexta-feira, retornando no domingo. Dois inspetores cuidam deste espaço durante todo o dia.

De acordo com o vice-diretor, Anderson José Bellini, várias empresas buscam estagiários na escola. Em muitas ocasiões existem mais ofertas do que candidatos. "Nosso desafio é sempre fazer com o que o aluno desperte o que há de melhor nele. Aqui é totalmente diferente de uma escola comum e o contato com eles precisa ser mais pessoal. É uma formação humana que ele acaba encontrando", explica.

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