Central faz campanha por doações
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de janeiro de 1998
Osmani Costa 
Deixe a vida seguir em frente. Doe seus órgãos. Com esta frase, a Central Regional Norte de Transplantes (CRNT) - ligada à Secretaria Estadual de Saúde - iniciou uma campanha educativa que objetiva esclarecer a população sobre a nova lei e a importância da doação de órgãos. A CRNT funciona há um mês em Londrina, na sede da 17ª Regional de Saúde, e é coordenada pela enfermeira Elza de Lara Bezerra.
A Central Norte - inaugurada no dia 12 de dezembro, simultaneamente à de Maringá - é o novo elo entre os doadores e doentes que esperam há anos nas filas dos hospitais por órgãos que possam curar doenças do coração, fígado, rins, olhos e tecido músculo-esquelético. O trabalho da CRNT abrange 98 municípios, de cinco regionais de saúde - Londrina, Apucarana, Cornélio Procópio, Jacarezinho e Ivaiporã - com uma população de aproximadamente 1,7 milhão de habitantes.
A CRNT assumiu o papel de organizar e controlar a captação e distribuição de todos os órgãos aos doentes necessitados (receptores) em Londrina e região, em substituição aos antigos bancos de hospitais. Os transplantes prosseguem sendo realizados pelas equipes médicas dos hospitais Evangélico, Universitário e Santa Casa - todos em Londrina.
A lista de espera dos futuros receptores - que em breve fará parte da lista nacional a ser publicada trimestralmente no Diário Oficial da União, para evitar fraudes - também passou a ser responsabilidade da Central Regional de Londrina. Atualmente, ela é composta por nove pessoas à espera de coração, 282 necessitados de córneas e 319 doentes que precisam de rins.
A nova lei é muito boa, coisa de país de primeiro mundo. Pena que nossa população ainda não esteja culturalmente preparada para conviver com ela. Fomos pegos meio de surpresa. Antes de ela entrar em vigor deveria ter havido uma ampla campanha nacional de esclarecimentos pelos meios de comunicação de massa, avalia Elza de Lara Bezerra, coordenadora da CRNT.
Ela explica que a campanha da Central Norte de Transplantes já iniciou as palestras, visitas e distribuição de panfletos em bancos, empresas e repartições públicas. As escolas serão alvo prioritário assim que terminarem as férias de verão. A expectativa é que se aumente em muito o número de doadores daqui para a frente. Não só em consequência da nova lei, mas também das centrais que passam a interiorizar o trabalho de captação e distribuição dos órgãos e da conscientização das pessoas para o ato de amor e solidariedade que é o de doar.
Diariamente a equipe da CRNT - composta por cinco profissionais - faz contatos telefônicos com todos os hospitais que contam com UTI na região, em busca de pacientes suspeitos de morte encefálica (sem sinal de atividades no tronco cerebral), que são os potenciais doadores de órgãos para transplantes. Na sequência, uma assistente social ou psicóloga faz o contato com a família do paciente, na tentativa de convencimento para a doação.
Apesar de a nova lei estabelecer que todas as pessoas maiores de 21 anos são doadoras, a menos que tenham se negado a esta condição por escrito, nós temos o maior respeito pela família e pelo morto. Ninguém, na região de Londrina, vai retirar órgãos de algum cadáver sem o consentimento da família. Não há este risco, garante Elza Bezerra. Não vamos invadir a privacidade da família em um momento tão doloroso, como é o da perda de um ente querido. Fazemos uma avalição psico-sócio-cultural dos famíliares, que diante da morte quase sempre entram em depressão e profunda tristeza.
A coordenadora geral da CRNT afirma ainda que em Londrina também não há qualquer risco de que órgãos sejam retirados do doador antes da total comprovação da morte dele. As equipes médicas de transplantadores dos hospitais da cidade são da maior competência, respeitabilidade e de inteira confiança. Além disto, a comprovação da morte encefálica sempre é feita sob responsabilidade de dois médicos - neurologista e intensivista - não vinculados às equipes de transplantadores. É verdade que as famílias ficam inseguras em relação ao diagnóstico da morte e têm medo da venda de órgãos. Mas a nossa central veio para dar esta segurança e garantia de que aqui tudo é feito com respeito ao morto, aos familiares, aos que esperam na fila, e dentro de critérios profissionais e éticos sérios e honestos.
As centrais regionais - como a de Londrina e Maringá - trabalharão interligadas às centrais estaduais e à nacional com o objetivo de aumentar o número de captação de órgãos doados, melhorar o sistema de distribuição e aumentar o número de hospitais aptos a fazer os transplantes. Este sistema vem sendo organizado pelo Ministério da Saúde e secretarias estaduais há pouco mais de dois anos e já apresenta bons resultados. Um grande avanço foi terminar com a injusta distribuição que havia anteriormente, quando só conseguia um órgão quem podia pagar por ele. Agora, as centrais fazem a ligação entre o doador e o receptor da fila, sem intermediários e sem risco para nenhum dos dois, comenta Elza Bezerra, lembrando que todo o processo que envolve a captação, doação e transplante de órgãos é financiado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), do governo federal.


