Centenas de famílias vivem segregadas
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sexta-feira, 04 de setembro de 2009
Mariana Guerin<BR> Reportagem Local 
Fogão sujo, panelas vazias, focos da dengue, ninhos de ratos, baratas, aranhas e muito lixo: a situação do pedreiro Domingos Gonçalves Pereira, que vive há 36 anos numa casa de madeira no Jardim Pindorama, Zona Leste de Londrina, se agravou em abril do ano passado, quando um cômodo, no fundo do terreno, pegou fogo. Sem condições financeiras de reformar ou mudar para outro local, ele convive diariamente com o mal cheiro e a sujeira e também com a escassez de alimento.
Situação como a da família Pereira se repete entre os 1,4 mil catadores de papel que moram e trabalham em Londrina. Conforme o sociólogo João Batista Filho, doutor em Sociologia Jurídica, esta população, que agrega desde crianças de 7 anos de idade a idosos de 76 anos, costuma trabalhar até 14 horas por dia em troca de um salário que não supera R$ 80 ao mês. São pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza.
Diferente de outras camadas da sociedade, que sobrevivem com os benefícios ofertados pelo governo federal, os miseráveis não são sequer notados por quem está ao seu redor. É uma desconsideração muito grande, pois o olhar da cidade para a periferia é sempre segregativo, explicou. Segundo ele, estas pessoas são meio-cidadãos, pois não têm cidadania econômica, política e muito menos social. Eles levam papelão para casa pensando em trocar por qualquer alimento. É a fome disfarçada em trabalho, afirma. A sociedade vê, sabe que existe, mas não faz nada porque não interessa. É um problema que só se resolve com políticas públicas, mas o governo também não quer intervir, analisou.
Para Batista Filho, hoje, a sociedade vive na cidade e não a cidade: Viver a cidade significa ter acesso a todos os direitos garantidos pela Constituição, como saúde, educação, segurança, transporte e informação, ter a dignidade de ser respeitado. Hoje vivemos na cidade, apenas em trânsito, assistindo tudo acontecer, sem participar.
Porta de entrada
Segundo a secretária da Assistência Social de Londrina, Jaqueline Marçal Micali, casos mais graves como o da família Pereira não são rotina. Muitos se tornam catadores de papel por falta de opção, já que estão há muito tempo fora do mercado de trabalho. Há casos em que as crianças não estão nem matriculadas na escola, comentou Jaqueline, informando que a Assistência Social é apenas a porta de entrada destas famílias a outras políticas públicas ligadas às secretarias de Saúde e Educação.
Conforme Jaqueline, para participar dos programas sociais, as próprias famílias carentes podem procurar os centros de referência em assistência social (Cras) do município, que também atendem denúncias. Entre os trabalhos dos assistentes municipais estão orientação e encaminhamento. Geralmente as famílias conhecem o Cras porque os serviços são bastante divulgados e quando os filhos vão à escola, a própria instituição de ensino conhece a situação da família e faz o encaminhamento.


