Lúcio Flávio Moura
Enviado ao Paraguai
Começa amanhã um censo agrário que pode definir a situação de 63 famílias brasileiras que vivem na localidade paraguaia de Puerto Índio, a 140 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu, no leste do Paraguai.
O Ministério do Interior do Paraguai deu um prazo de 22 dias para que técnicos do Instituto do Bem Estar Rural (IBR) – órgão similar ao Incra –, que trabalharão escoltados por 10 homens da Polícia Nacional, percorram e investiguem a situação legal de pelo menos 28 propriedades de brasileiros, invadidas com violência e saqueadas há seis meses por sem-terra paraguaios (campesinos).
Com o levantamento, o governo paraguaio pretende dar uma posição definitiva ao Itamaraty, que desde o início do conflito reivindica uma ação concreta para apaziguar os ânimos na região.
Os campesinos, que ocupam mas não lavram a terra, acusam os brasileiros pelo assassinato de dois agricultores paraguaios que ocorreram este ano na localidade de 500 habitantes, que faz parte do município de Mbáracayu. Os dois crimes ainda não foram esclarecidos pela polícia.
Os imigrantes, que se estabeleceram durante a década de 70 na região para plantar soja e criar gado de corte, querem receber o título definitivo da posse das terras, que antes da chegada deles era mata virgem.
O IBR quer checar acusações de campesinos e da Associação dos Agricultores de Alto Paraná, que asseguram que os brasileiros cultivam terras de terceiros ou ‘‘expandem’’ irregularmente os limites oficiais das propriedades.
‘‘Não acredito que este censo resolva alguma coisa. Eles já fizeram isso há dois anos e o problema só piorou. O que falta é vontade de assentar os campesinos em outras terras’’, diz o agricultor Osmar Moll, 61 anos, 26 deles vividos na localidade. Ele é dono de 86 dos 1.240 hectares da área de conflito.
Moll, espécie de líder da comunidade brasileira, perdeu quase a metade de suas terras em uma invasão feita por sete famílias campesinas em maio. Os sem-terra destruíram a cerca de arame e no primeiro mês de ocupação mataram gado para se alimentar. Sobraram 40 hectares que abrigam 60 bois e uma plantação de soja. ‘‘Perdi dois terços da minha renda e ainda corro o risco de ser chamado de grileiro’’, observa.
Para Heriberto Arguello, um dos cinco membros que compõe o conselho que administra o IBR, o censo agora tem outro sentido. ‘‘Quando fizemos o mesmo trabalho em 1997 a situação era outra. O que queremos é que a integração entre brasileiros e paraguaios seja usada para impulsionar o desenvolvimento agrícola do leste do Paraguai’’, explica Arguello, que acredita que do conflito pode surgir um novo modelo para outras regiões do país, habitado por 300 mil brasileiros.
A freira Terezinha Mezzalira, da Pastoral do Imigrante de Alto Paraná, define o censo como a última tentativa de solução para o drama dos brasileiros. A religiosa teme que o censo possa ser usado para fortalecer o movimento dos campesinos. ‘‘O Itamaraty deve ficar atento com o trabalho do IBR. Temos fortes indícios que os brasileiros que ocupavam terras ilegalmente já voltaram ao Brasil há muito tempo. Os que estão lá são apenas vítimas do preconceito e da intolerância’’, afirma.
Irmã Terezinha, como é conhecida pelos brasiguaios, refere-se a brasileiros que deixaram a região com a formação do Lago de Itaipu, que há 17 anos inundou terras de muitos pioneiros que reconstruíram a vida no Brasil com a indenização paga pela hidrelétrica.
Dijalma Mariano da Silva, cônsul-adjunto do Brasil em Ciudad del Este, acredita que o censo é fruto das ‘‘incessantes’’ gestões diplomáticas entre os governos dos dois países. ‘‘Nós confiamos que o pior já passou’’, afirma.Levantamento verificará situação de propriedades brasileiras invadidas e saqueadas por campesinos paraguaios
Fotos Ney de SouzaFALTA DE PERSPECTIVAFamília Nascimento, de volta para as terras paraguaias, mas sem poder plantar por medo dos campesinos: ‘‘Eles (os paraguaios) vieram para especular com a terra. Não tinham e não tem nada a perder’’, desabafa Jaime (à direita)Heriberto Arguello, do conselho do IBRMiguel Nuñes Vaz, da 4ª Zona da Polícia NacionalO agricultor brasileiro Osmar Moll, descrente com o censo

mockup