Despertador. Susto. Sono. Necessidade. Trabalho. Primeiro dia do ano. Lavo o rosto rapidamente. Calça jeans, tênis e camiseta. Não posso esquecer a chave do carro! Luto para manter os olhos abertos, que ardem por causa das poucas horas de sono.
Tenho pressa. Hoje é feriado. A caminho do jornal me deparo com um homem que dorme na calçada, provavelmente embriagado. Solidão e exagero.
Chego ao jornal. O porteiro está sentado em sua cadeira. Felicitações e cumprimentos de ano novo. Subo para a redação. Sou o primeiro a chegar. Ligo o computador. Retiro da tomada algumas baterias que hava deixado recarregando. Verifico o equipamento.
Penso em como será minha manhã. Provavelmente, olhar alguma coisa na internet, sentar-me no sofá e pensar a vida. Bem, melhor ficar longe do sofá! Ainda estou sonolento, pode ser que eu cochile, o que não é nada recomendável no local de trabalho.
Volta à minha mente a imagem do homem dormindo na calçada. Pego a câmera e resolvo fotografar esta inusitada cena de ano novo. Câmera em punho, dirijo-me ao meu objetivo. Acelero o passo e me aproximo para conseguir um bom ângulo. Tomara que que este cara não acorde! Não estou com disposição para uma corrida matinal! Cena registrada.
Vou para o Calçadão em busca de novas cenas. Ao contrário dos últimos dias do ano, ele está vazio. Avisto uma mulher que passeia tranquilamente com seus três cachorros. Algo está acontecendo. Ela tira um papel de seu bolso. Abaixa-se. Recolhe as fezes de um dos animais. Exemplo raro de educação. Cena registrada.
Aproximo-me para um rápido bate-papo. Ela me conta que mora em um edifício próximo a Folha, e que de lá tem uma visão de boa parte da cidade. ''No Centro não hove tanta comemoração. Agora, nos bairros e, principalmente, nos Cinco Conjuntos, deu para ver que a comemoração foi muito maior. Acho que eles têm mais esperança!'' - comenta a senhora.
Retomo a caminhada. Observo alguns gatos que brincam na praça. Com os olhos sigo o bichano, que se esconde num bueiro. Novamente, aproximo-me. O animal me olha assustado por entre as frestas da grelha. Num instante de abstração, lembro de nós, seres humanos, que nos escondemos atrás de grades, em nossas próprias casas, com medo da violência. A semelhança é incrível. Volto à realidade. O gato pode fugir novamente. É preciso fotografar. Cena registrada.
Enquanto uns tem vários automóveis em suas garagens, outros não têm, ao menos, casa ter garagem. Enquanto uns poluem o meio-ambiente com os resíduos de suas indústrias, outros reciclam. Enquanto uns são ricos e sucumbem à tristeza profunda da depressão, outros não precisam de dinheiro para sonhar e criar. Cena registrada.
Sigo de volta ao jornal. Missão cumprida. Esses momentos me proporcionaram viver um pouco do romantismo da profissão, ou melhor, vocação.

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