A vida sobre
duas rodas
- Assim pedala a humanidade. Pedala porque o passeio é público e a vida é curta. Por divertimento ou por salário. Porque a bruxa está solta e houve fuga na delegacia. Para seguir ordens médicas ou encurtar o caminho do boteco. Para chegar a tempo ou para matá-lo. Do nada para o lugar nenhum. Entregando jornal e escapando da cachorrada. Para relaxar às seis da tarde ou para labutar às seis da manhã.
- O homo sapiens pedala por ter pernas curtas. Vai de magrelas pequenas, magrelas mastodônticas, quinze marchas, marcha única, marcha lenta, marcha nupcial, freio no pé, freio na mão, retrovisor bonito, pára-barro amarelo, olho-de-gato, garupa cheia de trambolhos, guidão torto, capinha de banco com símbolo do Tubarão na segundona.
- Pedala-se sem as mãos, sem os pés, sobre duas rodas, sobre uma roda, sobre nenhuma roda, sob algum caminhão desgovernado, adiante do enterro, com o nenê, na traseira da Grande Londrina, no encalço da morena que pára o trânsito, ao lado da Kombi.
- A locomotiva de duas rodas esteve amarrada no bagageiro, foi esquecida e enferrujada depois que o boyzinho ganhou a moto, andou suja de barro, dirigiu-se para o Detran, atravessou irregularmente o Calçadão e girou pelos séculos dos séculos, amém.
- A humanidade pedala na rua sem saída, no canteiro de obras, nos vãos do congestionamento, na passeata ecológica, na República Popular da China, na praia lotada de farofeiros, na zona oeste de Londrina e nos banheiros para reduzir o colesterol.
- Não há explicação plausível para esse pedalar sem fim, itinerário cíclico dos aros, a cobra que engole o próprio rabo, o contorcionista que morde o dedão do pé, 360 graus transformados em zero, samba de duas notas, eterna entronização sobre o selim. Há apenas um destino ignorado, o vácuo pelas ruas, a lembrança de melhores dias e o permanente, consolador vento na cara.
- Pelos séculos dos séculos, a bicicleta esteve implícita na roda. Pelos séculos dos séculos, a humanidade quis colocar os pés pelas mãos. A liberdade é invento bem anterior à bicicleta. Assim foi e assim será - porque o passeio é público e a vida é curta.

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