Cenas de copa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de junho de 1998
O PATO E A ALEGRIA 
Nesta Copa do Mundo, quero homenagear um trabalhador que não é da bola, e que vemos na foto à direita. Seu campo é uma esquina do Centro de Londrina. Sua finalidade é nobre: distribuir alegria aos passantes, na esperança de que a Seleção Brasileira também distribua. Não é trabalho fácil, diga-se. Primeiro, ter que vestir essa fantasia de pato, que imagino quente como o inferno dantesco. Se o clima está ameno aqui fora, lá dentro deve estar uma caldeira das profundezas. Mas o trabalhador não se intimida com a temperatura. Acena a todos que passam de carro e de ônibus, a pé e de bicicleta. Brinca com as moças bonitas e os homens de pasta, com as crianças e os animais, muito antes de saber o resultado da partida.Paulo WolfgangMario CesarEspalha contentamento e otimismo na esquina. Também é duro, amigo pato, ter que suar essa camisa nº 11, estigmatizada por ter pertencido ao cortado Romário, a qual não foi possível trocar em cima da hora. Não conheço seu rosto nem sei o seu nome, trabalhador da esquina. Mas sei que existe alguém disposto a pagar o pato em nome da alegria fora dos campos. Essa mesma tentativa de alegria que paralisa a sociedade durante (pelo menos) noventa minutos. Assim como o eclipse cria uma noite virtual, e as galinhas voltam aos poleiros, o jogo do Brasil inventa um feriado virtual, e os cidadãos se hipnotizam na frente das tevês. Só isso explica por que a Rua Sergipe, em plena terça-feira, uma hora da tarde, esteve vazia como o Estádio do Café durante jogo do Londrina Esporte Clube. Apenas um pedestre se aventura a andar pelo passeio público, enquanto Ronaldinho se aventura pela zaga de Marrocos. Só a busca de uma alegria abstrata e nacional explica por que os vereadores, amuados entre si pelos escândalos do leite e da Comurb, enchem a Casa das Leis de bexigas verdes e amarelas, azuis e brancas, no velho estilo recomendado por Don e Ravel. Na Rua Sergipe ou na Câmara, tudo é o clima de Copa. Mas eu ainda prefiro o pato na esquina.
(Paulo Briguet)


