CENA DE VESTIBULAR
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de janeiro de 1998
O TELEFONEMA 
Paulo WolfgangAlô, mãe! Este é o telefonema que eu não pude fazer. Já estou com saudade de você e do pai, do arroz com feijão de casa, da cama pronta todos os dias. Não me acostumei a ficar longe da família e do cachorro, mesmo que seja pouco. Lá na república em que eu estou hospedado (com mais oito) não pagaram a conta de telefone. Agora eu venho aqui, doido para ligar - e vejo que embrulharam o telefone público! Que coisa mais louca, até parece um orelhão na camisa-de-força. Bom, mas me deixe contar. A república é um hotel cinco estrelas... Estou dormindo em cima de uma colcha todo furada, no corredor que dá acesso ao banheiro. Para tomar banho ou usar a privada (que os londrinenses chamam de patente) todo mundo tem que me pular de manhã. Perto de casa - olha aí eu já chamando a república de casa! - tem um bar que fica lotado toda noite. Mas eu até agora só bebi uma cervejinha, pode acreditar. Os caras que estão hospedados comigo são legais, com exceção de um bitolado que vai prestar Medicina e só faz três coisas: comer bolacha, decorar a apostila e dizer que entende pacas de genética avançada. Tem um outro sujeito meio esquisito, que chuta todas as questões na alternativa A e acende incenso para purificar a república (como se aquela pocilga fosse purificável). Tem uma moreninha muito gente fina, mas que dificilmente vai passar, pois terminou a redação escrevendo The End. Como tá cheia essa cidade, mãe! Só se vê ônibus cheio de vestibulando. E essa tal de Londrina é quente para danar. Dá até vontade de pular num lago bonito e grandão que tem aqui perto. Tem também um igreja em forma de triângulo, um relógio em cima de um prédio e umas avenidas malucas que primeiro são paralelas e depois se cruzam. Se eu passar, acho que eu vou acabar morando aqui - e naquela república! Bom, foi uma pena não ter falado com você, mas bem que eu tentei. Com licença, que eu preciso fazer a prova. Logo logo estarei aí. Beijo a todos e boa sorte pra mim. Não deixe a Fabiana mexer muito no meu Windows. Assinado: seu filho.
(Paulo Briguet)


