Era de arrancar suspiros dos homens e olhares invejosas de algumas moças. Aparentava ter uns 30 anos, não mais, mas tinha um jeito de criança no olhar. Negros, os olhos diziam, não apenas serviam para olhar. Emoldurados por longos cabelos, enfeitavam o rosto e davam à ela uma beleza suave.
Seguia um trajeto rigorosamente planejado, de segunda à sexta-feira, pelo Calçadão de Londrina. Exatamente às 11h40, surgia por trás do coreto, andando devagar, numa velocidade que parecia cronometrada. O rosto, que belo rosto, mirando para a frente. Os olhos, lindos olhos, sempre virados para um infinito. As roupas, simples mas na medida, faziam imaginar pureza.
- Que moça linda! Onde será que ela trabalha?
- Nem tanto. É bonita sim, desperta atenção, mas não exagera.
E aquele pedaço do Calçadão, às 11h40, virava um palco, onde uma moça bonita despertava admiração, de segunda à sexta-feira. Provavelmente uma secretária de um consultório odontológico da região central, uma balconista de uma loja de alto padrão, uma funcionária pública que aproveitava, diariamente, a hora do almoço, para encantar uma platéia formada por tantos outros trabalhadores que, também, às 11h40, transitam todos os dias pelo Calçadão.
Entre eles, outra figura típica daquela parte de Londrina, naquele horário e no mesmo banco, que dava de frente para um restaurante, folheando um jornal exageradamente amassado. Ninguém sabia o seu nome, como também as pessoas desconheciam onde trabalhava, de onde vinha, para onde ia. Falador, ele entrava nas conversas, respondia comentários alheios e, de comum com a moça, também chamava atenção por uma causa que não era beleza: o defeito de ser entrão.
- Merece espaço na minha coluna social. É muito mais bonita do que muitas mulheres que entram nas páginas deste jornal.
- Até por isso você nem consegue chegar perto dela.
- Coisa bonita é só para olhar. Já é bastante. Nem precisa chegar perto.
E ela seguia, como todos os dias, de segunda à sexta-feira, rumo ao outro extremo do Calçadão até sumir lá adiante. Além do leve perfume, deixava comentários, nunca maldosos, de assumidos admiradores, que aproveitam o fim do horário do almoço para olhar, no Calçadão, as coisas belas que um dia agitado dentro de um escritório costuma esconder.

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