Triste é o cão de campanha. Animal de aluguel, sem salário, sem lanche, sem ideologia, sem convicções profundas, sem bandeiras (a não ser as de pano). A esse pobre coitado, resta apenas um osso no final do expediente. Nem mesmo votante é. Desolado cachorro, para você restam que urnas? Que coeficientes eleitorais? Que plataformas de mandato? Que idéias? Que esperanças de uma vida menos canina? Siglas passam por você, pequeno cão, como a carrocinha passava em outras eras - rápidas e impiedosas. Nenhum TRE vem socorrê-lo dos adesivos que se grudam ao pêlo, não se vê sequer a Sociedade Protetora dos Animais. Bom cão, camarada que faz companhia aos cachorros quentes, servidos a cabos eleitorais humanos. Abana o rabo para os eleitores, fareja as candidaturas. Militante amigo do homem, seu palanque é o poste da esquina, seu slogan é o latido, sua marchinha é correr atrás das cadelinhas em cio, quarteirão atrás de quarteirão. Resta a você um consolo, companheiro canino: em outubro, não poderão prendê-lo sob acusação de fazer boca-de-urna. Triste é você, meu amigo cão de campanha, isolado dos mapas eleitorais, último dos garotos-propaganda, base da pirâmide dos faraós modernos, também chamada marketing.
(Paulo Briguet)

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