CENA DE RUA


JANELA DO TEMPO
Dorico da Silva
Abro a janela e não é mais 1998.
O cenário que vejo é o campus da Universidade de Londrina de alguns anos atrás. Ao andar de novo pelo lugar, fico até surpreso: com exceção de algumas obras de concreto e do visível fenecimento das perobas - vivas ou mortas? -, o lugar não mudou muito. É - foi - bonito, às vezes estranhamente vazio, propício à meditação de mãos nos bolsos. A grande calçada que corta o campus me leva de um centro de estudos a outro, sem maior motivo que o do passeio, sem maior pretensão que a de olhar as estudantes perdidas de livros na mão.
O caminho é circular. E o passeio ainda não acabou. Há anos a mesma caminhada persiste no calçadão do tempo, me levando ao não sei onde.
O jeito é andar. Vou para o labirinto também conhecido por biblioteca central, onde tantas vezes me perdi entre obras lidas (poucas) e não lidas (muitas). Era comum esquecer documentos pessoais e bilhetes no miolo dos livros.
Um amigo certo dia desenterrou bilhete meu. Estava escondido na página 98 de um romance de Scott Fitzgerald, ‘‘Este Lado do Paraíso’’. Romance que eu não li no momento adequado, bilhete que eu não mandei à garota certa. Tudo na hora errada, inclusive a exumação da cantada escrita. Tivesse o bilhete seguido a janela do tempo correto - 1998 seria diferente?
Percebo que a janela me fez voltar ao dia exato em que esqueci o bilhete no livro de Fitzgerald. Teria o escritor mandado bilhetes tolos a Zelda, sua mulher que morreu louca? Não sei. Como de costume não tenho respostas, não compreendo a lógica escondida naquela página. Apenas continuo caminhando.
Encontro o banco, próximo à janela. Nele eu me sentei certo dia para escrever o bilhete extraviado. Bilhete-fujão que jamais chegaria à destinatária. Bilhete-bumerangue que voltou para o remetente através da janela.
Agora, um casal de jovens deita sobre o banco, aproveitando o Sol e a calmaria do campus. Eles parecem incorporados ao bom tempo. Quem seriam?
Volto para o lado de cá da janela. Apago a luz. Fecho porta e janela antes de sair.
(Paulo Briguet)

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