Por trás dos olhos do cego, há escuridão absoluta e clareza total. Trevas e luz coexistem parasitárias, anulando-se mutuamente até o fim dos tempos. No cego existe algum ponto feito para ser visão, sem nunca ter sido, mas que permanece vivo em carne, osso e nervo apagado. Ali habitam cores imprevistas no prisma físico, ignoradas pelos telescópios, inalcançáveis pela óptica, inverossímeis para oftalmologistas, superiores a videntes, externas ao arco da velha, imponderáveis aos olheiros, afeitas aos buracos negros e invisíveis para nós, eternos míopes. E passamos pelo cego, indivíduos sem dó e sem tempo, compromissos inadiáveis, os olfatos vasculhando, as audições tremendo, os tatos suando, os paladares sorvendo, as premonições nascendo - e a visão não vendo. Ou - almas caridosas por um instante - despejamos à frente do cego uma das moedas escondidas, valor de menos que coexistia nas trevas e na luz do bolso, entre a escuridão do tecido e a clareza do papel de bala, entre a centelha do telefone rabiscado e a penumbra da chave do apartamento. Com ou sem esmolas para o cego, prosseguimos pelo Calçadão, vislumbramos a Catedral ou antevemos as Americanas. Assim o dia começa ou acaba segundo o Relojão. Ao olhar sem ver as horas, em pleno centro de Londrina, por um lapso descobrimos o que falta: clarividência.

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