CENA DE RUA
Eu tenho um primo distante - é meu amigo macaco. Ele mora no parque Arthur Thomas, zona sul de Londrina. Como a vida está difícil, o colega primata hoje tem três profissões: agitador ambiental, acrobata de cerca e comediante de cinema mudo. Às vezes fico chateado com suas macaquices, e dou-lhe uma banana, mando-o às favas. O velhaco fica muito alegre: aceita as bananas e as favas. Só falta agradecer com uma reverência. O menino da foto também se diz amigo do símio, e por isso o alimenta com Chips. Porém, o compadre peludo nunca vem sozinho; está sempre com a turma. Ultimamente, o primo está meio preguiçoso. Em vez de lutar pela sobrevivência na mata, tem preferido as facilidades da civilização. Parece até macaco de desenho animado, ou do Beto Carrero. Ele e a macadada vão buscar comida na cerca, e transformam o lugar em autêntico restaurante ao ar livre. O meu amigo vai até lá porque sabe que os homens são cheios de fazer humanices, acham que alimentar os animais é uma forma de provar a superioridade do racional sobre o selvagem. O Zé macaco só não gosta de intimidades. Comida ele aceita (se você vacilar, o bicho leva o saquinho de Chips e o cacho de bananas inteiros). Mas não se anime com o animal. Brincar, encostar a mão, levar para passear, guardar em casa? De jeito nenhum. Eu não sou cachorro, não!, ele parece dizer, quando alguém se aproxima demais. O primo valoriza muito a liberdade silvestre. Recusa-se a dar patinha, fingir de morto, rolar, abanar o rabo. E cuidado. Mesmo não sendo cachorro, o compadre sabe morder. Sem mais para o momento, amigo macaco, vou deixando você por aí, nas matas do Arthur Thomas. Cada um no seu galho.





