BATE-PAPO COM A ÁRVORE
QUE VENCEU O CIMENTO

Dorico da Silva


Se a flor de Drummond venceu a náusea e brotou do asfalto, a árvore da rua Rio Grande do Sul apareceu no meio da parede. Magra mas cheia de si, sempre querendo colocar os galhos pelas mãos e fincar raízes em solo improvável, ela mostra que o cimento pode, às vezes, ser superado pela força da natureza. No caso, a retidão da Engenharia perdeu espaço para a sinuosidade do vegetal. Leia a seguir curta entrevista com a intrometida figueira:
Folha de Londrina - Porque a sra. resolveu crescer bem no meio da pobre parede?
Árvore - Porque me deu na telha. Quer dizer, me deu na copa.
Folha - A sra. não tem pena de furar a parede e invadir o espaço público?
Árvore - Olha, a vida é dura, e eu defendo a função social da propriedade. Pertenço ao movimento dos sem-espaço. Sou uma incompreendida, uma excluída. Daqui a pouco estão cobrando taxa de fotossíntese. Mesmo assim, a gente tem que superar os obstáculos. Como diz o José Simão, quem fica parado é poste.
Folha - Não está vendo a placa de Pare?
Árvore - Estou, mas não sei dirigir. Se eu deitasse raízes na calçada, minha única função seria no trânsito de cachorros, que fariam meu tronco de sanitário. Também não estou prevista no Código de Posturas.
Folha - A sra. espera tornar-se símbolo do movimento ambientalista?
Árvore - Se a AMA não vier me cortar, como andou fazendo com algumas irmãs que moravam no Centro, é bem possível que eu vire bandeira verde.
Folha - Qual seu disco preferido?
Árvore - ‘‘The Wall’’.
Folha - E livro?
Árvore - Tenho dois de cabeceira: ‘‘Raízes do Brasil’’ e ‘‘O Verde Violentou o Muro’’.
(Paulo Briguet)

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