Digo bom-dia ao cavalo porque é inútil perguntar, inútil responder. Vejo a foto do cavalo numa casa perdida, único habitante de um quintal antigo. Nada sei do lugar da Cidade em que ele estava, quem foram seus donos, por qual preço foi vendido, data de nascimento, égua que o pariu, relinchos que emitiu, carroças que puxou, homens que transportou, coices que deu. A sombra do cavalo fica nesse aí-mesmo, periferia além da periferia, lugar onde a zona norte e a zona sul enfim se encontram, o vento faz a curva, São Judas passou descalço e o ônibus não passa. Não sou geógrafo, não tenho bússola, não gosto de me orientar pelo Sol. Não aprecio endereços, não sei chegar à casa do cavalo. No passado remoto - me garantiram - ele e os outros bichos falavam; época anterior a Noé. Hoje não temos a mesma sorte, ou o mesmo azar. Pergunto (embora seja inútil perguntar): se ainda falasse, o cavalo falaria demais? Haveria de seguir e piorar a tagarelice do mundo, a tempestade de informações, o desencontro de versões, o ocultamento da verdade pela palavra, e o da palavra pela indiferença, e o da indiferença pelas estatísticas? Não sei (pois é inútil responder). Através da foto, imagino que o cavalo que está perdido e parado nos confins da Cidade, cavalo assim distante da verdade, cavalo bebendo a água que ninguém quis (nem os mosquitos da dengue, nem as bactérias do Quati, nem o bêbado de ressaca, nem os fugitivos da cadeia), cavalo pisando o solo que ninguém viu (nem potenciais compradores da Sercomtel, nem rodados taxistas, nem mordidos carteiros, nem despejados sem-teto, nem garotos do semáforo). Estamos diante do cavalo que não leu Rosa muito menos Tchekhov, cavalo esperando nada, cavalo quieto e imóvel, cavalo sem caminho, cavalo apenas, bom-dia cavalo.
(Paulo Briguet)

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