Enquanto houver um homem comendo lixo, nada será esquecido, nada perdoado, nada completo. Não será possível descansar com serenidade, nem respirar tranquilo no final do expediente, nem abandonar a cabeça sobre o travesseiro, nem assobiar pelo Calçadão, nem dizer que o dia foi perfeito, nem dormir o sono dos justos diante da TV. Enquanto houver um homem comendo lixo, é preciso haver revolta de conformistas, súplica de indiferentes, penitência de infiéis, ira de mansos, subversão de ordeiros, ousadia de tímidos, escândalo de discretos, tenacidade de flácidos, radicalismo de moderados, severidade de bonzinhos, determinação de dispersivos, impaciência de monges, pressa de lentos. Enquanto houver um homem comendo lixo, o galo não vai cantar direito, o bebê vai chorar sem força, o vinho não será bem consagrado, a rotação do planeta persistirá em falso, o riso prosseguirá amarelo, a escadaria continuará estafante, a ressaca virá implacável, as férias estarão longínquas, o carro não vai pegar, a garota de biquíni parecerá inatingível, a sorte se esconderá, a praça ficará suja, a árvore sem folhas, o motor sem gasolina, o médico sem curas. E assim alguém andará, do saco plástico ao aterro sanitário, da marmita na calçada ao imediatismo da esmola, enquanto nós estaremos aqui e, seja dia ou seja noite, saberemos que vive um homem e ele come lixo.

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