Cena de rua
CENA DE RUA
Mário César
NÃO FALE NADA
A menina veio pedalando para telefonar. Levou ficha no bolso, número na cabeça, pressa sobre duas rodas, vontade de falar. De longe, viu o formato inconfundível do orelhão, velho símbolo da comunicabilidade. A garota acredita na civilização. Mas nem todos são ou foram assim na trajetória do mundo. Antes de desenvolver a fala, o homem descobriu o osso e a pedra. Exibia-os para comunicar poder aos inimigos. Depois, veio o fogo ameaçador. Mais tarde, os sinais de fumaça. Em algum ponto da pré-história, o antepassado do homo sapiens emitia grunhidos para estabelecer contatos, ampliar territórios, espantar inimigos, lucrar resíduos, afirmar-se. Antes, se o grito era insuficiente, recorria-se à violência.
Hoje, se o discurso não convence, recorre-se à bomba, à mentira coletiva, à concorrência desleal, à especulação do mercado, ao dumping e à privatização das consciências. Até hoje existem pessoas saudosas das velhas formas de comunicação. Preferem a selvageria técnica, a idiotização em massa, a reengenharia da guilhotina, a produção em série de excluídos, a propriedade cartorial, as amizades interessantes, o golpe financeiro, o terror simples, a explosão surpreendente, a porrada.
Os pequenos adversários da civilização sequer chegaram aos sinais de fumaça - como poderiam tolerar o telefone? Já os grandes adversários da civilização são modernos e destróem massivamente - depois expelem desemprego, ganância, banditismo, oligopólio, individualismo, especulação, salve-se quem puder. A menina da bicicleta decepciona-se.
O orelhão destruído por vândalos é mais uma pequena vitória da barbárie contra a civilização. A garota não fala grátis. Não fala pagando. Não fala nada. Pedala. Diz adeus. Vai-se embora.
(Paulo Briguet)





