CENA DE RUA


Mário César
DOIS MENINOS
Os dois meninos sem-teto até hoje não sabem o que é uma reintegração de posse. Não conhecem o significado de ‘‘déficit habitacional’’. Nunca tentaram traduzir o termo ‘‘excluídos’’. Para eles, a distinção entre terrenos públicos e privados é uma incógnita. O que os dois meninos sem-teto representam? Diante deles, alguns cidadãos preferem virar o rosto. Há algo pior que um enigma cercado de mistérios: é a evidência cercada de vazio. Consulte-se o mais hábil advogado de causas nobres. Pergunte-se ao mais ilustre homem público e leão dos gabinetes. Ouça-se o mais competente conhecedor do jargão jurídico e da política habitacional. Nenhum deles seria capaz de dizer, sem corar, que os dois meninos sem-teto são irreais. Porque eles estão na foto e na terra: carne, osso, lona, sujeira, roupa rasgada, brinquedo, infância, barracos, alergia na pele, dor de barriga. O refrão de seus pais é sempre o mesmo, com poucas alterações, monótono. ‘‘Eu morava de favor com a minha sogra.’’ ‘‘A gente não aguentava pagar mais aluguel.’’ ‘‘Nós não temos pra onde ir.’’ ‘‘Daqui minha família só sai se for pra um lugar melhor.’’ ‘‘Nós vamos acampar na Prefeitura.’’ ‘‘Aqui é todo mundo trabalhador.’’ ‘‘A gente não quer morar de graça, mas quer pagar um preço justo.’’ Os sem-teto deixam a obrigação de originalidade para os artistas plásticos das bienais. Os dois meninos sem-teto apenas ouvem, levam a vida no chão ocupado. Divertem-se com um brinquedo de segunda mão, que não funciona mais (brinquedo rejeitado por algum menino da classe média alta). Há solidários cristãos que desprezam a vizinhança dos invasores. Há honrados londrinenses que lhes negam água potável. Há amistosos cidadãos que preferem vê-los enxotados como bandidos.
(Paulo Briguet)

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