Cena de rua
CENA DE RUA
FILOSOFIA NAS ALTURAS
Dorico da Silva- A gente está pintando aqui há tanto tempo, sem falar nada.
- É.
- Você já percebeu que daqui de cima tudo é mais bonito?
- Hã-rã.
- E que todo mundo parece pequeno, os problemas também?
- Certo.
- Mas não devemos cair na ilusão das idéias dominantes. A sociedade capitalista se baseia na exploração da mão-de-obra de um imenso contingente como o nosso. Isso continua sendo real, embora as coletividades hoje superem a divisão rígida entre burguesia e proletariado. Há uma legião indefinida, com grande peso sobre os rumos da sociedade. É um autêntico desafio para as ciências sociais.
- Sim.
- Eu andei pensando que a economia é o motor da história, como essas cordinhas são a nossa garantia de sobrevivência. Se é que são.
- Hum.
- Às vezes eu tenho medo de cair daqui. Ficar dependurado é barra. Noto que há uma contínua oposição entre o ser e o não-ser, refletindo a contingência do homem no mundo.
- Pois é.
- Mas não devemos esquecer que a formulação de uma ética continua sendo importante. O grande imperativo moral muitas vezes é resumido pela seguinte pergunta: O que aconteceria se todos procedessem como eu? Claro que a ética tem sua fluência condicionada à história.
- Tá.
- Mas, para além das questões morais, se lançássemos uma dúvida hiperbólica, radical e universal, chegaríamos à conclusão de que os sentidos nos enganam, portanto a única realidade inegável é o pensamento: cogito ergo sum. Daí vem todo o fundamento da ciência moderna, que só se abalou com o advento da relatividade e da física quântica.
- Sei.
- Os tempos são difíceis e tensos. O átomo foi dividido pelo homem e ainda ameaça aniquilar a civilização. Por outro lado, nossas dúvidas aumentam. A mecânica newtoniana explica porque estamos dependurados aqui, mas não explica o universo. Os novos paradigmas a superaram em larga escala. De certa forma, isso já foi antecipado pela noção de homem absurdo.
- Ah.
- O homem sempre foi uma corda suspensa entre a razão e a selvageria. Vivemos sob a influência de desejos infantis ocultos, que nos jogam além da fronteiras de normalidade. Que horas são? Seis? Para o inconsciente, o relógio é apenas um medidor de espaços. Nos sonhos, o tempo não existe.
- Só.
- Entretanto, a faceta política do homem não pode ser esquecida. Não existe um Robinson Crusoé psicológico, isolado numa ilha ou nas alturas. É uma ilusão querer distanciar-se do poder. Alguém disse que o problema dos homens que não gostam de política é que serão governados pelos que gostam. A vingança da história é mesmo a pior.
- Ô.
- Tá um calor, né? Quanto foi o Corinthians ontem mesmo?
- Zero a zero.
(Paulo Briguet)





