Cena de rua
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de janeiro de 1998
EXAME DE CONSCIÊNCIA 
Espere um pouco, irmã. A porta já vai abrir. Quem garantiu foi Pedro, o dono das chaves. Espere, irmã. Espere e pense por nós, que pouca chance temos de pensar. Aguarde a abertura do correio, que ele tem malotes a levar, compromissos a honrar, metas a cumprir, urgências a atender, envelopes a carimbar.
- Espere e pense por nós, irmã. Enquanto o expediente não começa, pense nos sacramentos que não fizemos, nos mandamentos que não cumprimos, nos pecados veniais e mortais que cometemos, no ato de contrição que não rezamos, nas virtudes que não cultivamos, no pão e no peixe que não dividimos, nos problemas que inventamos, nas intrigas que não resolvemos, nos reinos que não vimos - embora reinos, intrigas, problemas, pão, peixe, contrição e pecados sejam deste mundo. E neles raramente pensamos.
- Irmã, lembre de nosso exame de consciência, sempre por fazer. Examine, que pouca chance temos de examinar. Pondere, que pouca chance temos de ponderar. Saiba, irmã, que a água em vinho tão cedo não vai se tornar. Paciência, irmã. Que a sua carta a senhora pode mandar. Para que rua? Não sei. Para que bairro? Vila, talvez. Para que cidade? Incerta e não sabida. Para que CEP? Não conheço matemática. Para quem? Aí complica de vez. Só sei que Pedro, o senhor das portas, garantiu: o correio vai abrir. Mande essa carta, irmã, que pouca chance temos de mandar.
(Paulo Briguet)


