Cena de rua
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de janeiro de 1998
(Paulo Briguet) 
- Vieram aí falando de um tal de Código de Trânsito, então eu resolvi colocar este retrovisor no meu veículo de trabalho. Se até pedestre vai levar multa, imagine carrinho de mão...
- Vou aproveitar para fazer uma propagandinha. Cato papel. Qualidade do serviço garantida. Adaptação total ao novo Código de Trânsito Brasileiro. Não ofereço velocidade, mas garanto segurança.
- Cato jornal, papelão, cartolina, revista, carbono, sulfite, panfleto, guardanapo, álbum de figurinhas, caixa de autorama, gabarito de vestibular, pedaço de outdoor, mata-borrão, Diário Oficial, pipa, fax, sacola de supermercado, lista telefônica usada, títulos da dívida externa, ação da bolsa coreana. Só não cato papel higiênico, papelote, papel de bobo ou de palhaço.
- Cato por bom preço. (Você não vai à falência e eu não passo fome, OK?)
- Papel-moeda, venha a mim!
- Catador de papel também é padrão de qualidade. Adaptação total à nova ordem econômica. Os tecnocratas me chamam de pessoa economicamente ativa, voltada para o setor informal. Eu me chamo de trabalhador de rua.
- Não lanço poluentes na atmosfera. Tenho tração nas duas pernas. Pendurei aqui um telefone celular (por enquanto está quebrado, mas logo conserto).
- Ah, se meu retrovisor falasse! O que ele já viu de barbeiragem não caberia em mil cenas de rua.
- Não tenho carteira de trabalho. Não tenho cartão-ponto. Mas aceito tanto um quanto outro. Se esses papéis não têm mais utilidade para você, pode jogar na minha carroceria.


