- O nº 1 estava na véspera do feriado.
- O nº 2 não faz distinção de datas.
- O nº 1 formulou planos para o ano que iria nascer.
- O nº 2 não sabe que já se passaram 1998 anos depois do nascimento de um garoto judeu no outro lado do mundo.
- O nº 1 fez diversas promessas a si mesmo, entre elas parar de beber, ou pelo menos diminuir a cachaça.
- O nº 2 não é tão exigente consigo mesmo; a nada lhe induz a chegada de janeiro. Aliás, para ele, o mês que abre o ano é como um julho mais quente. Mas dá para perceber que nestes dias alguma coisa estranha acontece, a oferta de comida aumenta, a tendência humana de demonstrar o propalado espírito de Feliz Natal e Próspero Ano Novo deixa algumas sobras e migalhas para os animais.
- O nº 1 começou o último dia do ano no bar.
- O nº 2 também.
- O que mais atraía o nº 1 dentro do bar era a prateleira, cheia de garrafas.
- O que mais atraía o nº 2 dentro do bar era a televisão de cachorro, cheia de frangos.
- O nº 1 começou a ficar alegre. Não teve fome porque a bebida é um almoço ilusório.
- O nº 2 começou a ficar com fome. Não teve alegria porque a televisão de cachorro é um almoço impossível.
- O nº 1 saiu tarde do bar, quando as portas já estavam sendo fechadas e o dono só pensava em reunir-se com a família para a ceia (levando um dos frangos que o primeiro não quis comprar).
- O nº 2 saiu tarde do bar, quando as mesas já estavam sendo recolhidas, e o ajudante do dono só pensava em reunir-se com a família para a ceia (levando um dos frangos que o segundo não conseguiu comer).
- O nº 1 não teve alternativa e urinou no poste, cuidando para que a polícia não o visse.
- O nº 2 não teve dificuldade e urinou no poste, pois é sempre o que ele faz.
- O nº 1 talvez não tenha emprego.
- O nº 2 talvez não tenha dono.
- O nº 1 ouviu os rojões do novo ano, ficou chateado e continuou andando pela rua.
- O nº 2 ouviu os rojões do novo ano, ficou apavorado e se escondeu embaixo de uma lata.
- O nº 1 mexeu com duas meninas que passavam alegres de branco.
- O nº 2 latiu para os carros que aceleravam como loucos.
- O nº 1 sentiu sono.
- O nº 2 também.
- O nº 1 sonhou que o segundo, o terceiro, o quarto e outros dias do ano talvez fossem melhores que o primeiro. Pois ele já previa, dentro do sono, aquela ressaca, o sol e o calor tão fortes no feriado que amanhecia.
- O nº 2 não teve sonhos muito definidos, mesmo porque não saberia verbalizá-los. O tempo do calendário é uma invenção humana que ele não entende.
- Para o homem, nada a fazer além de curar-se da noite.
- Para o cão, primeiros e últimos dias são sempre iguais.
(Paulo Briguet)

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